Ao sabor dos ventos, por Petrônio Souza Gonçalves
sex, 14 de março de 2014 00:00* Petrônio Souza Gonçalves
Queria aquela lua tatuada em minha vida inteira. Como se dela irradiasse luz para os meus dias, sabendo que nossa existência é apenas o reflexo do improvável, do imponderável, do indecifrável, daquilo que não podemos compreender e, por isso, damos muitos nomes. Somos órfãos perdidos no tempo, esquecidos na eternidade… Assim, amamos tantos deuses sem milagres, e fazemos do que não vivemos a grande razão para seguir.
Quem dera saber quem pintou a aurora e deu cor aos bem-te-vis. Quem dera pedir a ele para vir pintar essa vida aqui, tão distante do ponto originário que era luz e se fez sombra da explosão primeira. Na busca incessante pela luz, pedimos, silenciosamente, diariamente, por um sinal, para orientar o caminho. Assim vamos nós, motivados pelos desejos vãos, pelas coisas que não temos, buscando a vida que nunca conquistaremos. Não somos povoados de infinito e nossa finitude é tão confortável que estenderemos no sofá da sala toda nossa verdade. Basta? Talvez. Apenas sinto que faltam muitas respostas para estarmos aqui, por isso vagamos, andamos para lá e para cá, na insana busca surda de conquistar e amealhar tudo que não temos.
Viver é mesmo um entardecer danado. Por isso cantamos, acreditando que nosso lamento, como unguento, encontre um cantinho para ficar, para adormecer, como se vivesse uma renovada primavera. Quimera. Quem nos dera… Precisamos seguir, porque o tempo quer o agora, que para ele é apenas um instante que demora, e por isso implora pela festa do viver. Ele só existe no que está para acontecer, pois é ali que ele pode se esconder.
Tão pobre de eternidade segue o tempo nos roubando tudo que ele não pode nos conceder, pois a felicidade demora e ele tem que ir-se embora. Precisa de esmolas, fragmentar as horas, dar-nos o pedaço menor, que, às vezes, nos é tudo. Vou fundo no minuto que não pode retroceder, na entrega diária ao que não posso esquecer. Além disso, ergue-se o verbo padecer, esse que fica pálido de tanto não ser.
Busco o cheiro escondido na aurora, seu estranho gosto madurado pelas horas, essas que a gente guarda na vida inteira e é parte de tudo que não podemos compreender. E preciso seguir. E preciso desvendar os desejos de nossa vida sem eira nem beira.
Queria apenas sorver do tempo que cai no vento o eterno sabor dos momentos que não podem mais se perder. Estão guardados aqui, neste coração de infinitas moradas em que cabe todos que as curvas dos caminhos, as esquinas do destino, fizeram em mim morar.
Casei com a esperança de tudo se renovar. Envelheço nunca, porque além de nós brilha a centelha que nunca vai se apagar. Ela tem o sentimento do mundo e pulsa fundo seu vaga-lume encantado. Ele segue o compasso do coração e faz da noite do pensamento um só momento da mais pura e renovada paz, quando, no silêncio sagrado da noite, tudo se refaz. Melhor seguir a vida pela calçada, pois elas têm flores e sabores das casas, têm nomes e pegadas, que vão além de nossa passada.
Enquanto sonho, vou. Voo sem saber onde pousar, porque pouco importa onde posso ficar. A vida é do que não tem lugar e as ondas levam o frágil e desamparado barco de nossa existência para lá e para cá. E assim ele, o pequeno barquinho das grandes frustrações humanas, levado pelo imenso mar dos ideias, vem pousar na praia nossa de todos os dias, quando as ondas vão e vem, e seguimos, boiando, sem ninguém, ao eterno sabor dos ventos.
* Jornalista e escritor
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