Ficha Técnica – Herói Invisível
qua, 15 de junho de 2016 05:23
Lucas, capítulo 23, versículo 24. “Perdoa-lhes, eles não sabem o que dizem”. Adriano, 14 de março de 2010, Flamengo e Vasco no Maracanã – “Que Deus perdoe essas pessoas ruins”. Seja na Bíblia ou na cancha, são lições que não cairiam melhor para aquela noite de domingo. Assisti ao último vexame do Brasil dentro de casa, por um beco sem saída, na Rede Globo – confesso. Vestia o fardamento da seleção peruana, flagrante que testemunhei apenas aos 20 do primeiro tempo. Vida que segue, afinal, não perdíamos para eles há mais de 30 anos.
O jogo seguiu e como diria Mauro Cezar Pereira, “Dunga e seus blue caps” pareciam ter se encontrado. Na estreia do torneio, com o camisa 10 na reserva, fomos beneficiados por um erro de arbitragem. Depois, únicos a sofrer gol do Haiti. Quem fechou os olhos para o início e glorificou a goleada, reverenciava. Mas assim como em 2 de julho de 2010, 8 de julho de 2014 ou junho de 2015, não era dia de seleção brasileira. Nem de Neymar, que de Las Vegas desabafou defendendo a equipe de qualquer jornalista ou torcedor revoltado com a situação. Linguagem chula, de alguém que veio muito depois da maioria deles.
Neymar jamais terá a divindade de São Marcos, a personalidade de um Doutor ou a maestria de um Galinho de Quintino. Tampouco, será lembrado como a Enciclopédia do Futebol, Imperador, Furacão ou Anjo das Pernas Tortas. Que dirá a frieza, alegria e predestinação da extinta turma dos R’s – Brasil – Copa das Confederações de 1997 – Roberto Carlos, Rivaldo, Romário e Ronaldo. Pode fazer chover e ter números muito superiores a quem foi citado, mas seu caminho está longe de ser um reinado.
O dono da camisa 10 da seleção poderia muito bem aprender com seu parceiro de Barça, Luís Suárez, que exigiu jogar até quando não podia. “Luisito” que um dia levou o Uruguai para a semi da Copa de 2010 e batalhou mordendo com unhas e dentes em 2014. Ou o argentino Di Maria, que nesta mesma Copa América jogou pela avó. Enquanto Neymar desabafa pelo lado errado, o coordenador da Seleção, Gilmar Rinaldi, defende que “estamos no caminho certo”. Sim, fantoche de alemão, freguês de paraguaio e salão de festas de colombiano.

Lewis Hamilton, Neymar e Justin Bieber em estreia do Brasil na Copa América
Após mais um vexame, Galvão lamentou. Casagrande destacou a boa atuação e argumentou dizendo que o objetivo principal deve ser as Eliminatórias, na qual estamos em sexto. Ronaldo atribuiu a um efeito político da falta de valorização da Conmebol com a seleção. Ninguém citou o ex-presidente da CBF preso, o coronel da ditadura ou o mandachuva que não pode sair do país. Uma máfia medieval, escondida por décadas pela cortina da grande mídia, que na falta de um ídolo, glorifica um herói invisível.
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