Exorcizei o Tiki-Taka – Ficha Técnica 6 anos
qui, 2 de junho de 2016 05:16
Há seis anos, tudo não passava de um passatempo. As milhares de tabelinhas de campeonatos de mini-craques ficavam para trás. Era hora de amadurecer – pular do macarrão instantâneo para a macarronada ‘mil grau’. Afoito, dirigiu-se em direção a cozinha e pediu ao irmão um título usual. Na tarde do dia 11 de junho, não conseguiu ficar na escola e patenteou a falsa alergia mais grave do mundo. Na TV, tocava o Waka Waka da Shakira. Mas esse não era o único perigo. Estavam todos contaminados por um mal chamado tiki-taka.

Lembrança de quando Edmundo moralizou o futebol rebolando para Gonçalves
Escreveu todos os 64 jogos e viu a “Fúria” se transformar em “La Roja”. Perdeu a namorada e prestou vestibular, mas ainda falhava na macarronada. Dois anos depois, na data de aniversário do saudoso avô, decidiu conhecer um lar nebuloso e nefasto de sua infância. Foram 13 horas até que o avião pousasse na Terra da Rainha. Foi recebido por desconhecidos-conhecidos. Ali, o idioma era o mesmo, mas não pareciam falar a mesma língua. Chicken aqui, fish acolá. Saborearam um café antes de apontar para o novo endereço, porém algo ainda pairava. Talvez fosse o fantasma do tiki-taka.
Talvez fosse o pragmatismo do momento. As jogadas sem efeito. O controle linear do jogo e o excesso de técnica. Um filho bastardo da laranja mecânica holandesa, ou do toco y my voy argentino. O horário também não favorecia. Certo dia, conseguiu assistir ao jogo do time de coração na Libertadores. A equipe acabou eliminada e ele de castigo por ficar no computador de madrugada. Como iria escrever sobre algo que não viu? Na manhã de sábado, soube que o maior clássico da cidade aconteceria a menos de 10 km dali. Seguiu a pé rumo ao estádio junto da torcida anfitriã numa rua fechada por cavalos monumentais. Sem um trocado, ouviu de fora o chocho zero a zero.
A filosofia do tiki-taka assombrava mais uma vez. Até que no dia 3 de junho, às vésperas das Olimpíadas na cidade onde morava, optou por recuar o passo e estudar sobre aquilo que escrevia. Na viagem, brindou o retorno para casa com o vinho de um nobre baiano e o uísque de um jovem goiano deportado. Novamente sem trocados nas 11 horas que permaneceu no aeroporto, ganhou o almoço de uma generosa senhora carioca. Seu sonho era pisar numa redação de jornal e, logo no segundo dia após a volta, o realizou. Ali, permaneceria por mais três anos.
Em junho, “Ficha Técnica” completa seis anos de existência. O blog que virou coluna. O sonho que atravessou o oceano e ditou o ritmo de uma vida. O réu confesso nascido na era moderna do futebol gourmet, que se curvou ao espírito tiki-taka e hoje tenta exorcizar seus escanteios curtos, suas chuteiras coloridas, suas selfies epidêmicas e madeixas conspiratórias. Pela volta da simplicidade, da catimba, provocação, magia e calor do bom e velho esporte bretão, a luta continua!
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