Ficha Técnica – Aos olhos de um cão
qua, 15 de julho de 2015 07:38
Estudos comprovam que ouvir música alta no ônibus não traz novos amigos. Deus também vê quem fura fila ou joga lixo na rua. Nem todas as catástrofes do mundo são culpa da Dilma, e é mais fácil o padre do Balão conseguir voar do que alguém mudar de opinião após uma discussão nas redes sociais. Entre todos os mitos, a verdade é que o ex-país do futebol ainda é rico em cultura. Pobre mesmo é a cultura do brasileiro.
Era manhã de sábado, 11 de julho. A população ainda sofria de ressaca do aniversário dos “7 a 1” quando fui vencido pelo pastel da Dona Lena na feira em frente ao prédio. Para o desprazer da minha mãe e da Organização Mundial de Saúde, saboreei tudo como se não houvesse amanhã. Encontrei gente de diferentes cantos, que falava sobre política, trabalho e lazer. Alguns diziam sobre futebol, mas pareciam inconformados com aquilo que viam por aqui.
Deixei a feira e tomei o ônibus rumo à minha cidade natal. Dei graças ao criador dos fones de ouvido e em seguida desci para o almoço em família. Para não perder o costume, um jovem primo desafiou para jogar videogame e logo garantiu – “Sou a Alemanha!”– disse. E eu, do tempo em que era Brasil contra Brasil, lembrei da turma dos inconformados na feira.
No caminho para a casa, deu na rádio mais um escândalo de dirigentes do futebol. A seleção brasileira permanecia como uma mina de ouro, mas o esporte agora era o xadrez. Desafiei todas as mensagens daquele dia e decidi acompanhar a rodada do Brasileirão. Confesso que jamais vi alguém ser brutalmente torturado como a bola daquele jogo. Em meio ao show de horrores dentro e fora dos gramados, fui salvo por um retrato.

Homem aparentemente cego acompanha jogo com seu cão-guia
Tratava-se de um torcedor da República Tcheca, aparentemente cego, acompanhando o jogo do seu time ao lado de um cão-guia nas arquibancadas. Ali, voltei a sentir o puro sentimento do mais popular dos esportes. A paixão incondicional, que supera a violência, discriminação ou interesses alheios. O coração como lente sobre qualquer adversário. Se uma imagem vale mais que mil palavras, aquela poderia estampar um dicionário.
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