Deusinha do Tonico, por Alzira Corrêa
qui, 20 de novembro de 2014 00:00Essa é a história da Deusa Maria, ou Deusinha, que viveu em alguma pequena cidade das Minas Gerais. Baixinha, magra, branquinha, com dois diplomas de curso técnico e…. casada, no civil e religioso com o Tonico! Quem conheceu Deusinha, diz que se houve uma mulher que amou um homem, essa foi ela. Ou macho nenhum em Minas foi mais amado do que o Tonico, que também tinha dois diplomas. Tonico, bronzeado pelo sol da vida, magro e discreto, tinha na Deusinha, o amor da sua vida. Tinha gente que achava o Tonico tinha mulher fora, mas nada que os olhos e ouvidos de Deusinha soubessem.
Tudo era o Tonico. Chegava de viagem e lá estava a Deusinha, perfumada, de roupa nova, aí incluída a calcinha e o sutiã, tudo pra agradar o marido. Foram mais de vinte anos de paixão, até o acidente que matou Tonico. Para evitar a batida com um carro que fazia uma ultrapassagem perigosa, tombou o caminhão que dirigia e acabou-se a vida do Tonico e da Deusinha. De material, Tonico deixou a casa e a pensão de um salário mínimo.
Deusinha trabalhava em um supermercado. Fazia de tudo, da contabilidade até repor mercadoria e limpar chão. Nada de serviço a escandalizava. Após a morte do Tonico, vestiu uns vestidos rotos, prendeu o cabelo num coque, esqueceu o batom, o perfume, o salto. O luto não é só preto, mas de qualquer cor. Luto vem da alma.
No dia cinco de cada mês, Deusinha levantava de madrugada, tomava banho de uma hora, ia ao salão da rua, fazia escova, passava esmalte vermelho (o preferido de Tonico), vestia calcinha e sutiã zero quilômetro, idem um vestido novo, sempre de seda e às dez em ponto, entrava no banco, pra receber a pensão de salário mínimo, deixada pelo Tonico, que ia direto para a poupança. De volta, Deusinha tomava banho da cabeça aos pés, tirava o esmalte das unhas, e com o luto, ia pro supermercado, fazer de tudo, com os seus vestidos velhos e o coquinho na cabeça.
Povo de cidade pequena é muito curioso. Porque Deusinha tirava o luto uma única vez no mês? O que havia no banco, que fazia a moça tão nova e bonita, vestir seda, pintar as unhas, arrumar cabelo? Os funcionários negavam qualquer intenção, ainda mais ela que não dava confiança pra homem nenhum.
Um dia, chega a parenta de confiança, daquelas conversadas. Foi jantar com a Deusinha e logo tascou a pergunta, que ardia na boca de todo mundo. Porque ir tão chique, ao banco, todo dia cinco?
Deusinha não agüentando mais o segredo, confidencia que todo dia cinco, às 10 da manhã, na boca do caixa, Tonico lhe aparece, sempre bonitão e apaixonado e ela, naqueles poucos minutos de amor além da vida, quer se mostrar linda pro homem que nunca esqueceu. Simples assim!
Cinco anos durou! Um dia cinco, Deusinha chega ao banco, com um vestido de seda rosa, bordado no decote e conta pro caixa, que com o dinheiro da pensão construiu uma casa pequena, mas de laje, que era pra alugar e que ia começar a construir outra. Precisava de tudo, pra comprar material. O caixa apresentou a maquininha da senha e Deusinha já ia terminando de digitar, quando sente uma pontada no peito. Vira os olhos e cai, embalada pelo barulho da registradora processando o saque. Tonico veio buscar a amada. Ninguém viu, mas todo mundo sabe que foi assim.
Levaram a Deusinha pro hospital. Que nada! Ela já ia longe, de braço dado com o homem da sua vida, feliz e esquecida, que por uns anos, se viram só no dia cinco do mês. Ficou o corpo, vestido de seda rosa de decote bordado, a calcinha e sutiã novinhos, o esmalte vermelho, o cabelo loiro bem escovado, nem precisando da funerária trocar a roupa. O velório começado, o pessoal do banco chegou com os pêsames e o dinheiro da pensão.
Tem gente que não acredita que existe amor além da vida, mas existe sim. Tonico e Deusinha sabem que o amor deles era eterno. Quem mora, lá naquelas bandas, fala que não tinha mais jeito pro amor dos dois, eles tinham de se reencontrar e ser felizes, lá do outro lado. Certeza que a Deusinha continua fazendo frango amarelo com quiabo e angu de milho verde, passando esmalte vermelho e pintando o cabelo de loiro, tudo pro Tonico. São as coisas do amor de verdade. Afinal já falava o Nelson Rodrigues: “todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor”.
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Excelente texto. Estória emocionante, toca-nos o coração. Gostei muito. Espero que a escritora continue publicando outras coisas boas como esta. A coluna “Debaixo do Pé de Limão” é excelente. Vale a pena ler.
Descrição exata de uma pessoa que acreditava demais no amor de sua vida !!
Parabéns Alzira , sua sensibilidade e coerência, faz-me crer que cada um tem sua missão e trajetória aqui definidas !
Alzira,
Adoro tudo que você escreve………continue sempre nos presenteando com o dom que você tem …………….
Abraços!
Elizamar