O surto de Ebola e a pandemia do medo, por Rodrigo Angerami
sáb, 25 de outubro de 2014 00:04* Rodrigo Angerami
De doença rara, quase curiosidade médica e tema de produções cinematográficas ficcionais, eis que o Ebola se tornou uma realidade, uma ameaça global; uma questão de segurança nacional.
A doença pelo vírus Ebola, uma zoonose que tem em morcegos e primatas seus reservatórios naturais, é mais um exemplo de vírus que “saltaram” entre espécies. Transmitido pelo contato direto com sangue e outros materiais biológicos (fezes, vômitos, urina, sêmen…) eliminados por pacientes infectados e sintomáticos (e somente quando sintomáticos), a luz do conhecimento atual, não é transmissível por via aérea. Dentre os infectados, uma parcela significativa dos casos evolui com complicações hemorrágicas, colapso circulatório e disfunções orgânicas múltiplas, justificando a letalidade de cerca de 70% entre os casos do surto atual.
Iniciado em dezembro de 2013, mas detectado em março de 2014, o surto de Ebola na África Ocidental vem se avolumando em número de casos e de óbitos desde então. Muito se questiona se a declaração do surto como Emergência Internacional em Saúde Pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em agosto de 2014 não foi demasiadamente tardia e tenha sido um dos determinantes da expansão do surto. Difícil afirmar em que proporção, mas certamente o alerta global e a sensibilização para necessidade de colaboração internacional que agora se observam teriam sido mais precoces.
A situação é preocupante, ganha nuances trágicos a cada dia, pelos números – provavelmente subestimados, mas que somam pelo menos 10.000 casos e quase 5.000 óbitos – e pela divulgação em tempo real de notícias e imagens de pacientes moribundos e corpos, muitos corpos, “envelopados”.
Surtos de Ebola não são novidade, pois vem ocorrendo pelo menos desde a década de 1970, alguns com letalidade próxima a 100%. Em todo o mundo, ano após ano, mais de 500.000 pessoas morrem de Influenza e milhões se tornam vítimas da Dengue. Na África, todos os anos, milhares de crianças morrem em decorrência de diarreia e outros tantos milhares de pessoas em decorrência da malária. O que torna, então, o atual surto de Ebola motivo de preocupação nunca observada em relação aos vários outros que o precederam?
Primeiramente, o fato de que, apesar de todos os esforços internacionais, a interrupção da transmissão da doença nos países com surto – Guiné, Libéria, Serra Leoa – não parece próxima; há um crescente número de casos novos e óbitos e a expansão para novas áreas de transmissão. As estimativas recentes da OMS são pessimistas: seriam necessários vários meses para o controle do surto e o número de casos pode a chegar aos chegar a dezenas de milhares. O colapso da esfacelada infraestrutura e o isolamento dos países afetados, o risco à segurança alimentar, a instabilidade político-social, a retração das frágeis economias se delineiam como mais uma tragédia humanitária no continente africano. Some-se a isso questões éticas e diplomáticas decorrentes das discussões, que ocorrem em vários países, acerca da adoção de barreiras sanitárias voltadas a viajantes e egressos dos países acometidos.
Mais. Nunca se teve um surto com um número tão grande de casos e uma duração por período tão prolongado, em três países simultaneamente.
Pela primeira vez o vírus, a doença, “escapou” dos longínquos vilarejos nas florestas, chegou aos centros urbanos e partir daí “viajou” a outros países e continentes. Exemplos recentes justificam a preocupação (não pânico) e ratificam a necessidade de que países, o mundo, tenham suas capacidades de resposta estruturadas. O primeiro caso importado nos EUA, detectado tardiamente, mostrou que, além de ser factível a introdução do vírus (ainda que de um modo geral se considere pouco provável) a ocorrência de contatos na comunidade é factível. Além disso, a transmissão a partir de casos conhecidos a profissionais de saúde, nos EUA e na Espanha, apontou que, sim, a ocorrência de casos secundários, a transmissão, fora do continente africano é tangível. Eis que surge um novo caso importado nos EUA, em Nova Iorque, agora em profissional da saúde que estava atuando na “zona quente”.
E no Brasil? Há um plano de contingência, bem estruturado. Simulados já houve. Um primeiro suspeito, descartado, colocou o plano brasileiro sob teste. A percepção inicial é de que a capacidade de resposta, para o nível de alerta atual, se mostrou apropriada.
Ocorrência de surto no país? Pouco provável, notadamente, dentre outras coisas, por serem a infraestrutura sanitária, as condições de isolamento de casos suspeitos, a oferta de equipamentos de proteção individual muito mais apropriadas que aquelas observadas nos países africanos sob surto. A recente declaração da OMS de que Senegal e Nigéria (países que haviam recebido casos importados e, no caso da Nigéria, com casos secundários) no momento estão livres da doença, mostra que planos de contingência, quando bem estruturados e rigorosamente executados, são exequíveis e eficazes no controle da doença.
Alguns apostam que inexoravelmente casos importados venham a ser confirmados no país. Outros afirmam que seria quase impossível. Nesse momento, o mais prudente, seria considerar que, sim, o surto atual da febre pelo vírus Ebola figura como desafio ao mundo e uma potencial ameaça global, que a entrada de casos confirmados seja possível e que, ainda que menos provável, a ocorrência de surtos no país, por ora, seja algo improvável. Para que, de fato, se mantenha improvável a experiência de um surto no país, é imprescindível que se tomem ações bem estruturadas e integradas objetivando a detecção precoce de casos suspeitos, não apenas em portos e aeroportos das capitais, mas em municípios Brasil afora, incluindo-se aqueles de fronteira, potenciais portas de entrada de migrantes e refugiados.
Para tanto, são mandatórios um sistema de vigilância sensível, serviços de saúde bem estruturados, profissionais da saúde capacitados, diagnóstico laboratorial ágil e divulgação transparente das informações pelos órgãos governamentais. Não menos importante nesse momento, entretanto, é a contenção do pânico, esse sim passível de se disseminar e se tornar em pandemia sem precedentes.
* Médico infectologista do Hospital de Clínicas da UNICAMP, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia
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