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Neto de maragato, por Inocêncio Nóbrega

sáb, 4 de outubro de 2014 00:03

* Inocêncio Nóbrega

Rua Alice, 41, bairro das Laranjeiras, Rio de Janeiro, 30 de abril de 1914, há cem anos, portanto, nascia Carlos Frederico Werneck Lacerda, filho de Maurício de Paiva e Olga Werneck Lacerda. Registrado pelo avô paterno na cidade de Vassouras, nome preferido para lembrar a ímpar figura de Karl Marx. Sua ancestralidade é gaúcha, dos maragatos, laços históricos que se incorporaram à alma adolescente de um homem que em 1930 foi escolhido para ler manifesto de Carlos Prestes, diante da cúpula da Aliança Nacional Libertadora. Entretanto, a vocação pela agitação político-ideológica dentro do jornalismo, numa ideologia avessa aos princípios socialistas e democráticos, estava na sua preferência. Um “gigante de ombros largos, braços musculosos e de olhar penetrante; de voz firme, por vezes metálica”, sobre ele escreveu o jorn. Hugo Ramos. Aproveitou bem tais qualidades nos parlamentos por onde atuou,  no seu jornal “Tribuna da Imprensa”, na mídia de outras empresas. Soube construir amizades com oficialidade de muitas estrelas, conforme seus pensamentos extremamente controvertidos.

Na vida pública mudou de posição várias vezes, mas era um estadunidense coerente e confesso. Quando governador da Guanabara determinou perseguição policial aos mendigos e às manifestações estudantis e populares, contrárias às invasões norte-americanas a Cuba. Seu segurança pessoal, Paulo Ribeiro Peixoto, apelidado de “Coice de Mula”, comandou, durante seu governo, horripilante espancamento no repórter do “Correio da Manhã”, Nestor Moreira, o qual veio a falecer onze dias depois, em razão das críticas aos desmandos policiais. Era um implacável opositor a qualquer movimento político de tendência progressista. Ao nacionalismo nascente, dos bons tempos da Petrobrás,  adjetivava de “bananismo”; para ele, Getúlio Vargas era um caudílho incurável. Lutou para impedir a investidura de JK na presidência da República. Considerava Janio Quadros, antes indicado à chapa presidencial nas eleições de 1960, pela banda de música udenista, da qual fazia parte,um traidor.

Em 1961, intensificou seu elo com os militares, induzindo-os à reação pela posse de Jango. Com o marechal Castelo Branco manteve assíduos contatos epistolares. Dizia-se presidenciável, por saber de cor da problemática nacional. Enchendo-se de empáfia, costurava sua subida à rampa do Planalto, pela via golpista, o caminho mais curto. Tornou-se líder civil do golpe-64, porém dele alijado, pelos amigos  verdes-olivas, os quais temiam suas reconhecidas essências de exímio agitador. Na vida privada, tornou-se banqueiro e proprietário de uma editora, até sua morte, em 1977.

* Jornalista
inocnf@gmail.com

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