O Tio Davino, por José Roberto Peters
ter, 19 de agosto de 2014 00:02José Roberto Peters (*)
Pois é: com o acontecido — a morte de Eduardo Campos, candidato à presidência da república — me lembrei do Tio Davino e da Tia Célica. Na verdade eles eram tios do meu pai. Os últimos que ainda restavam vivos. E quase todo ano a gente ia visitá-los lá no sul. Eles moravam em Bela Vista, um distrito de Mafra, lá em Santa Catarina.
Era de lei: segundo ou terceiro dia depois da chegada o programa era visitar o tio e a tia. E eles recebiam a gente com a maior felicidade. Sentávamos na cozinha, em volta do fogão à lenha. A tia preparava um café e abria um pacote de bolacha — um luxo pras visitas —, e o tio empurrava a chaleira pro fogo e cevava um chimarrão, pra acompanhar a conversa.
Tio Davino era agricultor aposentado. Terra pequena. Muitos filhos. Vida apertada. O pai sempre perguntava: “como tá de pila, tio?”. “Assim, assim”, ele respondia. E o pai dava a ele uns dinheirinhos. Pouco, mas que representava muito. E se conversava de tudo: da terra, das geadas, do pinhão que tinha sido muito esse ano e pouco no passado, das criações etc.
Uma vez me lembro que a conversa — sei lá como — foi parar na revolução de 30 e o tio contou que estava alistado à época. Teve quase que partir pro combate, mas a “revoltosa se acabou antes d´eu ter como dar uns tiros”, disse ele. E, pra ilustrar a conversa nos levou até a sala pra mostrar uma foto emoldurada em que estava com uniforme do exército.
Era a primeira vez que eu entrava naquela sala, a gente sempre conversava na cozinha. Era um cômodo apertado, pequeno mesmo. Ao invés de sofá uns bancos de madeira, fotos emolduradas na parede e uma mesa de centro com uns tantos bibelôs. Perguntei pro tio porque ele fez a sala tão pequena — não me atrevi a dizer que era meio feia — e a cozinha tão grande.
“É que aqui” — e girou o dedo pra apontar a sala toda — “a gente recebe quem não vai se demorar”. E continuou, “vê que os bancos são meio duros. Não são de muito conforto. Aqui é pra quem não é de casa, mas a gente ‘percisa` receber”. E arrematou. “os de casa vão pra ‘vera` do fogão — por influência castelhana ele misturava o bê com o vê em algumas palavras —, onde a gente pode assar um pinhão na chapa, tomar um café e deixar a água sempre pronta pro chimarrão”.
Abri minha página do facebook e — com a lembrança do tio — resolvi mandar um monte de “amigo” pra sala. Estarei com eles, mas só os receberei se não tiver outro jeito. Muitos serão recebidos sempre na cozinha. E eliminei alguns: estes nem na sala, nem na cozinha.
Eliminei os que não têm respeito — e fizeram piadas sobre a morte. Eliminei os sem ética — que saíram a traçar teorias conspiratórias e a fazer acusações levianas. E eliminei os desumanos — que desejavam que a fatalidade tivesse acontecido com outro. E antes que venham dizer que isso não é democrático, me deixa dizer uma coisa: não há discussão democrática sem respeito, ética e humanidade.
(*) José Roberto Peters – mestre em Educação Científica e Tecnológica, professor universitário e consultor técnico da OPAS no Ministério da Saúde.
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