FURANDO A BOLHA – 30 DE OUTUBRO
sex, 30 de outubro de 2026 08:00
O Brasil precisa se unir
“Quem só ama o país quando o seu candidato vence não ama a pátria. Ama o poder.”
Por Dr. Leandro A.M
Depois deste breve recesso para acompanhar as eleições de 2026, retorno às minhas atividades na coluna Furando a Bolha.
Nunca usei este espaço para fazer panfletarismo em favor de qualquer lado político. Isso não significa que, na vida privada ou nas redes sociais, tenha deixado de me posicionar sobre aquilo que considero certo ou errado. Quem me conhece sabe que nunca tive medo de contrariar opiniões majoritárias, enfrentar a impopularidade ou confrontar grupinhos, seitas e marias-vão-com-as-outras.
Acho que não tenho talento para ser político, porque não consigo vender minha autonomia de raciocínio para agradar ao setor A ou B. Minha consciência, o estudo e a análise crítica sempre foram e continuarão sendo meus guias. Ao ouvir pessoas e pensadores mais sábios, não tenho problema algum em mudar de opinião. Claro, já errei várias vezes, como qualquer outro. Contudo, prefiro errar seguindo a minha verdade a abdicar de pensar e seguir a voz da dita maioria.
Destarte, esta eleição nos deixou muitos recados. É preciso saber interpretar o que as urnas dizem, inclusive quando a mensagem contraria nossas expectativas.
Goste-se dele ou não, Lula é o maior estadista da história deste país. Foi eleito para seu quarto mandato porque, sem dúvida, é o Pelé da política mundial. Nesta última dança, encerra um período histórico marcado por progressos inegáveis na educação, na saúde, no combate à fome e à desigualdade e no crescimento econômico. Sua trajetória também teve inúmeras contradições, como a corrupção envolvendo o PT e todos os partidos, da direita à esquerda. Vale lembrar que o presidente do PL foi preso no mensalão. Então, é burrice dizer que houve corrupção só no PT.
No terceiro governo, citaria como bons exemplos a diminuição da pobreza, um país sem fome, o recorde de vendas de veículos, o maior número de passageiros nos aeroportos em quase 30 anos, a construção de novos institutos federais e escolas, a retomada de milhares de obras paradas, o retorno da vacinação e o menor nível de desemprego, entre tantos outros.
Reconhecer esses avanços não impede admitir os erros graves que precisam ser corrigidos. A articulação política falhou muito diante de um Congresso hostil. Lula ficou encastelado, ouvindo um pequeno grupo de apoiadores e se afastando das vozes das ruas, das demandas dos pequenos e médios empreendedores e da preocupação com a violência e a segurança pública, mesmo que esta ainda seja responsabilidade dos governadores. A trajetória de aumento da dívida pública e as dificuldades de equilíbrio fiscal também exigem respostas consistentes, não apenas justificativas eleitoreiras. Responsabilidade social e responsabilidade com as contas públicas precisam caminhar juntas.
Uma frente ampla não pode ser lembrada apenas na hora de pedir votos e esquecida quando chega o momento de dividir responsabilidades e discutir os rumos do país.
As escolhas para o Supremo ilustram minha crítica ao personalismo. Defendi a indicação de Rodrigo Pacheco, que considero preparado, conciliador e dotado de sólido conhecimento jurídico. Também vejo em Simone Tebet as mesmas qualidades para ocupar uma cadeira na Corte, além da importância de ampliar a presença feminina. Lula, entretanto, optou por indicar Jorge Messias, advogado-geral da União, cujo nome foi rejeitado pelo Senado. Considero essa rejeição acertada.
Concordo, portanto, com a ideia de que o governo precisa de mais Alckmin e menos Janja: mais articulação, sobriedade e capacidade de conciliação, menos personalismo. Nas indicações ao Supremo, a proximidade com o presidente não pode funcionar como principal credencial nem se sobrepor à independência de quem vai julgar.
A direita demonstrou força no primeiro turno, sobretudo na eleição para o Congresso. Isso precisa ser reconhecido, não minimizado. Contudo, meus caros, ninguém vence de véspera. Na minha leitura, a prepotência de quem já se comportava como vencedor contribuiu para mobilizar a reação contrária. Confundir vantagem eleitoral com vitória consumada costuma sair caro.
Não interpreto a reeleição de Lula como um cheque em branco. Vejo no resultado uma sociedade dividida, com forte resistência ao lulismo, mas também com uma rejeição tremenda ao retorno do bolsonarismo, decisiva, na minha avaliação, para esse pleito. Há quase uma década escrevo e digo: trata-se de um movimento familiar que sequestrou a direita democrática e inteligente. Deus é só para eles, a família é só a deles e a pátria serve apenas aos seus interesses e aos dos EUA.
Quem perdeu esta eleição não deve, de maneira alguma, aderir à lógica do “quanto pior, melhor”. Fazer oposição é legítimo e necessário. Eu seguirei como em todos os governos: elogiarei os acertos e criticarei os erros. Afinal, transformar o voto num contrato de adesão ou num pacto com alguém é de uma imbecilidade tremenda. Fiscalizar, denunciar irregularidades e apresentar alternativas são deveres democráticos de todos nós.
Torcer pelo fracasso do país apenas para provar que o próprio voto estava certo é outra coisa. Isso não é oposição responsável, é ressentimento fantasiado de convicção e burrice. Afinal, estamos todos no mesmo barco.
A composição do Congresso que assumirá em 2027 me preocupa profundamente. Na minha avaliação, há entre os eleitos uma leva de deputados e senadores cujo preparo parece muito inferior à responsabilidade dos cargos que ocuparão. O que espero de um parlamentar é disposição para discutir os problemas estruturais, o equilíbrio fiscal, a desindustrialização e o apoio aos pequenos e médios empresários e aos trabalhadores em geral. Não uma rotina de provocações pensadas para render um reel no Instagram ou uma lacração no TikTok.
Eleitor, você está pagando quase R$ 300 mil por cada parlamentar. Quer que seu representante fique fazendo dancinha, com os olhos virados e o celular na mão, lacrando e produzindo videozinhos sem entender absolutamente nada das matérias sobre as quais vota? É isso mesmo?
O povo tem o dever cívico e moral de parar de bater tambor para maluco dançar. Chega de perucas, de cortes ensaiados e de transformar a República numa disputa de quinta série. Precisamos reunir a esquerda e a direita democráticas em torno de propostas concretas. Isso não exige unanimidade, muito menos submissão, mas maturidade para construir soluções comuns sem entregar o debate público a quem depende da confusão para continuar relevante.
Chega também de falar de travestis, banheiro unissex e kit gay: é só disso que esses idiotas falam. Direitos e dignidade merecem discussão séria, não exploração oportunista. Precisamos parar de premiar quem fabrica inimigos em vez de governar, legislar e melhorar a vida da população.
No fim, meus caros, as urnas entregam mandatos, não atestados de infalibilidade. Quem venceu deve governar sem arrogância; quem perdeu deve fiscalizar sem torcer pela desgraça; e nós precisamos cobrar ambos, sem terceirizar o próprio raciocínio. Se a melhora do Brasil nos incomoda porque beneficia politicamente alguém de quem não gostamos, talvez a primeira reforma necessária seja a da nossa consciência. Quem só ama o país quando o seu candidato vence não ama a pátria. Ama o poder.
Leandro Alves de Melo, bacharel em Direito e bacharelando em Administração pela Universidade Federal de Uberlândia, é advogado, ex-delegado da ESA OAB/GO (2013-2015), colunista e proprietário dos escritórios Alves & Melo Sociedade de Advogados. É pós-graduado em Gestão de Pessoas pelo INESP/SP (2018-2020), especialista em Direito Previdenciário pelo IEPREV/BH (2020-2022), pós-graduado em Direito Constitucional pelo Instituto de Direito Público de Brasília (2019-2022) e Master Trainer in Neuro-Linguistic Programming, NLP (2012-2019)*. Vencedor do Top of Mind 2023 como advogado previdenciário e das edições de 2024, 2025 e 2026 como advogado constitucional.
*Com certificados reconhecidos internacionalmente nessa área.
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