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CANTINHO DO MÁRIO – 15 DE AGOSTO

sáb, 15 de agosto de 2026 12:50

DIA D TUPINIQUIM

O Zé é um sujeito sacudido, em ótima forma para os seus oitenta anos. Tem onze filhos homens, seis com a primeira esposa, falecida, e cinco com a segunda, sendo que ela está grávida e, pelos exames, vem aí mais um homem. Ele é robusto, mas já apresenta pequenos sinais de decadência. Eu o conheço há muito tempo; ele segura bezerros erados na unha, sozinho. Vive na fazenda fazendo suas “catiras”, negocia de tudo e vai vivendo — e devo dizer que muito bem. Um dia desses, ele me convidou para almoçar com ele. Aceitei de bom grado. Terminado o almoço, fomos para a varanda conversar. Sua esposa nos serviu um café torrado na fazenda — é outra coisa. Nos acomodamos em dois bancos de madeira muito confortáveis. Aí ele acendeu um cigarro, pigarreou e começou a falar: — Faz tempo que quero ter uma conversa com você. Estou com uma coisa para te contar, que nunca falei para ninguém. É sobre esse povo de outros mundos que você sempre fala. Eu, que conheço o Zé e sei que é de conversar pouco, fiquei atento. — Pois é — continuou ele. — Tava eu consertando uma cerca dos lados do riacho quando percebi um barulho que parecia um zumbido sobre a minha cabeça. Apesar de serem umas três horas da tarde, percebi um objeto luminoso que se misturava com o ar; era quase invisível. Quando dei por mim, tava dentro do aparelho. Embora lá fora estivesse um calorão, dentro tava fresquinho. Eu, todo sujo, suado, e uma mulher muito alta, morena, de cabelos compridos e uns olhos azuis que pareciam ler meus pensamentos, falou comigo numa língua que não entendi nada. Me levaram para uma sala contígua e inseriram um pequeno objeto no lóbulo da minha orelha. A partir daí, entendia tudo o que ela falava. Então apareceu outra, parecida com ela, me rodeou, me examinando com o olhar; apenas olhou para a outra e saiu. Rapaz, na hora me veio aquele pensamento besta e pensei: — Que baita fêmea! A mulher que me recepcionou disse-me que se chamava Dora. Aí foi aquele baita papo. Então, ela me contou que vinha de um planeta de outra dimensão que eu não conhecia. Disse-me também que eles estavam vivendo um drama: já fazia quinze anos, no tempo da Terra, que lá não nasciam homens e que, estudando-me, resolveram me levar para fazer uma experiência. Eu devia prenhar dez mulheres para ver se assim poderiam contornar o problema. Então pensei comigo: — Esta é minha especialidade. Ela me levou para a sala do lado e apresentou as garotas. Caí o queixo. Pensei: “Estou no céu” e pedi para ela me beliscar, o que fez, sorrindo. Antes que começasse “meu trabalho”, fui introduzido dentro de uma espécie de redoma transparente, onde fiquei flutuando em uma atmosfera que parecia vapor. Depois que saí de lá, ela me explicou que eu havia feito uma espécie de limpeza para que nada prejudicasse o resultado final. Fui levado para um local bem iluminado, e as dez garotas foram junto comigo. — Rapaz! Cê há de vê que fiquei com vergonha e nada deu certo. Depois de algumas horas sem conseguir meu intento, fui retirado de lá e escutei quando a garota que me recebeu falou para a outra: — Perdemos nosso tempo. Fui levado de volta, e as meninas se despediram de mim. Eu não sabia onde punha a cara. Agora vou muito ao local onde me abduziram, mas estou prevenido: tenho sempre uma caixa de azulzinho no bolso. “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.”

 

MÁRIO FERREIRA.:

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