FURANDO A BOLHA – 4 de julho
sex, 4 de julho de 2025 08:00

TEMPOS DE I.A
O icônico filme Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, constitui uma crítica social contundente ao impacto da Revolução Industrial na vida dos trabalhadores. A obra acompanha o personagem Carlitos diante das adversidades de um sistema mecanizado e opressor, marcado por exploração, desemprego e desigualdade. Com humor refinado e profunda sensibilidade, Chaplin denuncia a perda da humanidade diante da busca incessante por produtividade, retratando a luta do indivíduo para preservar sua dignidade em um mundo cada vez mais automatizado.
Perceba, caro leitor, que essa película se aproxima de completar um século e, ainda assim, permanece atual. Embora inserida em outro contexto histórico, a crítica à desumanização causada pelo avanço tecnológico continua pertinente. Em tempos de inteligência artificial, é evidente que essa inovação tem substituído progressivamente não apenas o trabalho braçal, como outrora na Revolução Industrial, mas também funções intelectuais e criativas, antes consideradas exclusivamente humanas.
Diferentemente das máquinas que automatizaram o esforço físico, a I.A. agora ocupa espaços que exigem raciocínio, sensibilidade e até intuição. Senão, vejamos: segundo relatórios da Talk Inc., estima-se que mais de 12 milhões de brasileiros já utilizem inteligência artificial para realizar terapias — e isso quando ainda estamos nos estágios iniciais dessa tecnologia. No campo jurídico e na medicina, a tendência se confirma: há hospitais na China que já empregam sistemas autônomos de triagem clínica, substituindo o contato inicial com profissionais da saúde.
Não se trata de demonizar o progresso — muito pelo contrário. A tecnologia é uma ferramenta poderosa, desde que orientada por princípios éticos e por políticas públicas comprometidas com o bem-estar coletivo. Torna-se urgente, portanto, que governos e sociedade civil debatam os impactos irreversíveis dessa transformação. Nunca a proposta de uma renda básica universal esteve tão em evidência. Para se ter uma ideia, até 2022, a carreira de programador representava uma das profissões mais promissoras e bem remuneradas. Com a rápida evolução da I.A., milhares de postos de trabalho nessa área foram eliminados, transformando, em pouco tempo, o melhor ofício em um dos mais ameaçados.
Outro efeito colateral preocupante é o uso da inteligência artificial para fins escusos, como fraudes, manipulação de imagens (deepfake) e disseminação de desinformação. Se antes eram as gerações mais velhas que caíam em golpes digitais, hoje nem mesmo os mais jovens conseguem escapar da avalanche de conteúdos fabricados, tornando cada vez mais difícil discernir entre o que é fato e o que é falso.
Diante de um mundo que avança em ritmo vertiginoso, é inevitável que surjam inquietações quanto ao lugar do ser humano nessa nova engrenagem. A inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, não possui consciência, empatia ou compaixão — atributos que nos distinguem e nos tornam humanos. O risco não está apenas em sermos substituídos por máquinas, mas, sobretudo, em passarmos a agir como elas: insensíveis, automatizados, da imperfeição que nos torna únicos. Não há problema em sermos auxiliados pela tecnologia; o problema surge quando ela se torna guia absoluto das nossas decisões, valores e relações. É necessário resistir à sedução da eficiência desumana e recuperar aquilo que nos conecta — o afeto, o pensamento crítico, a pausa. Em um mundo que valoriza tanto a performance e a produção, cultivar presença e introspecção torna-se um ato revolucionário. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja criar máquinas mais humanas, mas impedir que os homens se tornem máquinas. Nesse sentido, nunca foram tão atuais as palavras ditas por Chaplin em O Grande Ditador: “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.” Que possamos lembrar que, apesar do aço das engrenagens, somos feitos de carne, memória e sonho.
Leandro Alves de Melo, bacharel em Direito e bacharelando em Administração pela Universidade Federal de Uberlândia, advogado, colunista, é proprietário dos escritórios Alves & Melo Advocacia MG e GO, pós-graduado em gestão de pessoas INESP/SP (2018-2020), especialista em Direito Previdenciário pelo IEPREV/BH (2020 a 2022), pós-graduado em Direito Constitucional pelo Instituto de Direito Público de Brasília (2019-2022), Master Trainer in Neuro-Linguistic Programming NLP (2012-2019)*, vencedor do Top of Mind 2023: advogado previdenciário e vencedor do Top of Mind 2024 e 2025: advogado constitucional.
*com certificados reconhecidos internacionalmente sobre essa matéria
Alves & Melo Sociedade de Advogados
34 3242 1489 e Whatsapp 34 99900 0819 (MG e GO)
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