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Coluna: Furando e bolha – 27 de junho

sex, 27 de junho de 2025 10:17

 

            O Espelho

          

 

Ao retornar à UFU, observei diversas transformações, em sua maioria positivas, desde o período em que finalizei minha primeira formação. A universidade pública me parece hoje mais inclusiva e acessível, abrindo portas para pessoas que antes dificilmente teriam chance de ingressar no ensino superior. Essa percepção me trouxe esperança e renovou meu entusiasmo com o ambiente acadêmico.

Em uma das aulas recentes, fomos provocados a refletir sobre temas como autogerenciamento, inteligência emocional e liderança — assuntos que sempre me instigaram. Uma das ideias discutidas me tocou especialmente: a de que podemos aprender muito observando as pessoas de quem não gostamos. Carl Gustav Jung, ao tratar da sombra humana, escreveu: “Tudo aquilo que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.” Essa frase me acompanha há anos, e sempre que percebo em mim uma crítica recorrente a alguém — mesmo que silenciosa —, aciono um sinal de alerta. Se não se trata de um comentário pontual, mas de algo que beira a obsessão, pergunto a mim mesmo: será que aquilo que estou censurando não está, de alguma forma, latente dentro de mim?

Na maioria das vezes, quando uma crítica é dura, contínua e carregada de emoções como raiva, inveja ou frustração, ela revela mais sobre quem critica do que sobre quem é criticado. Quanto menor o nível de autoconhecimento, maior é a tendência de projetarmos no outro aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos. Sigmund Freud, ao estudar os mecanismos de defesa do ego, afirmou: “A projeção é um processo pelo qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro […] qualidades, sentimentos, desejos — até mesmo objetos — que ele não reconhece ou recusa em si.”

Esse mecanismo é facilmente identificado quando olhamos ao nosso redor — e, principalmente, quando lemos os jornais. São inúmeros os casos de figuras públicas que condenam aquilo que, secretamente, praticam. Um exemplo recente é o do deputado norte-americano Madison Cawthorn, ligado à extrema-direita, conhecido por suas críticas à comunidade LGBT, que foi flagrado traindo sua esposa com homens e em situações contraditórias com a imagem que sustentava. Outro caso emblemático envolve um ex-presidente dos Estados Unidos, defensor da moral e da família tradicional, que quase sofreu um impeachment após ser flagrado traindo a esposa com uma secretária. Esses episódios não são exceções. Eles revelam uma verdade desconfortável, mas necessária: quanto mais veemente for a condenação do outro, mais provável é que ela esconda um espelho.

Talvez, então, uma das mais poderosas ferramentas de autoconhecimento seja justamente essa: observar aquilo que nos incomoda nos outros. Não para julgar, mas para investigar. O que é que isso me diz sobre mim? A resposta, por vezes, não é agradável, mas é libertadora. Como disse Friedrich Nietzsche: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

Cultivar a lucidez de reconhecer as próprias sombras não é um processo simples, mas é indispensável para qualquer trajetória de amadurecimento. Afinal, somente quando assumimos a responsabilidade por aquilo que sentimos e projetamos é que nos tornamos verdadeiramente livres para crescer, evoluir e nos relacionar com mais empatia e autenticidade.

 

 

 

Leandro Alves de Melo, bacharel em Direito e bacharelando em Administração pela Universidade Federal de Uberlândia, advogado, colunista, é proprietário dos escritórios Alves & Melo Advocacia MG e GO, pós-graduado em gestão de pessoas INESP/SP (2018-2020), especialista em Direito Previdenciário pelo IEPREV/BH (2020 a 2022), pós-graduado em Direito Constitucional pelo Instituto de Direito Público de Brasília (2019-2022), vencedor do Top of Mind 2023: advogado previdenciário e vencedor do Top of Mind 2024 e 2025: advogado constitucional.

 

Alves & Melo Sociedade de Advogados

 34 3242 1489 e Whatsapp 34 99900 0819 (MG e GO)

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