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Coluna: Furando a bolha (09/06)

qua, 9 de junho de 2021 08:18

por Leandro Alves de Melo

EM DEFESA DO MÉTODO CIENTÍFICO

A coluna “furando a bolha”, desde o início, se preocupou com a ciência e com o que há de melhor que ela possa nos oferecer. Neste texto, gostaria de expressar o meu apoio à médica, Luana Araújo, cujo depoimento na CPI na última quarta-feira foi espetacular. Explico o porquê.

A mineira é uma médica infectologista do primeiro escalão mundial. Não há, talvez, no país, alguém mais qualificado para nos ensinar sobre a epidemia que nos massacra todos os dias, que leva pais, filhos, irmãos, amigos, sem dó nem piedade. Brevemente vos digo que Luana Araújo se formou médica especialista em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui um mestrado em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins Bloomberg, nos Estados Unidos, e é a primeira brasileira a receber a prestigiosa Bolsa Sommer.

Com esse histórico, com certeza, ela é uma cientista que reúne condições técnicas para nos ensinar sobre essa catástrofe mundial e que poderia, caso não fosse vetada pelo governo, ter contribuído enormemente para a saúde pública. Para quem não sabe, o atual ministro da saúde a convidou. No entanto, dez dias depois desse convite, ninguém sabe o motivo, o nome dela foi vetado e ela não assinou a posse. Acredito, baseado em outras ocasiões, que o motivo foi: ela faz ciência, não ideologia política.

Desde o início da pandemia procurei me informar com artigos científicos e textos de pessoas com esse prestígio. Sendo assim, com base nessas informações, há mais de um ano teci alguns cenários possíveis que poderiam acontecer. Sem falsa modéstia, embasado por esses grandes cientistas, acertei quase todos. Não por mérito próprio, mas simplesmente por saber ler e ter a humildade de reconhecer que não sei nada nesta área do conhecimento, e estive aberto para aprender.

No ano passado, bem no início, afirmei para amigos que chegaríamos a três mil mortes diárias (algo impensável naquela época), caso não déssemos um cavalo de pau nas políticas públicas. Disse também que era arriscado o apoio sistemático do governo a apenas remédios que não tinham a devida comprovação científica, que estavam sendo testados apenas em ensaios clínicos, que não necessariamente assegurariam o resultado experimentado no mundo real, que deveríamos investir todas as nossas forças em pesquisa e compras de vacinas. Era o básico.

Como a própria médica Luana disse, você pode colocar o vírus no micro-ondas por um período de tempo. Ele morrerá, mas você não poderá utilizar esse mesmo método para humanos, não faz sentido.

Sinto, caro leitor, se eu vou te entristecer, mas, assim como disse a médica citada, NÃO EXISTE TRATAMENTO PRECOCE PARA COVID. Não adianta você se entupir com cloroquina, ivermectina ou azitromicina, todos esses remédios já foram descartados por todos os órgãos sérios que estudam o vírus. Você pode até me dizer: meu médico particular disse que funciona, sim. Será que ele está respeitando o método científico? Garanto para você que, se estivesse, não receitaria isso.

O método científico é um conjunto de regras, etapas e processos que devem ser seguidos para a produção do conhecimento sob a égide da ciência. Portanto, é o método usado para a comprovação de um determinado conteúdo. Sendo assim, não importa se as perguntas são feitas por algum cientista que tenha ideologia de direita ou de esquerda. A ciência não tolera lentes ideológicas que querem que os fatos científicos sejam vistos por ela. A ciência é o que é, e os resultados não podem ser manipulados ou discutidos com base em subjetividades, pois assim não será método científico, apenas achismos, discursos vazios e enviesados — ou seja, nada que contribui para o estudo almejado.

Esse fenômeno, em razão da polarização nefasta que assola o Brasil, conseguiu contaminar até mesmo áreas que não deveria respingar política, como é o caso do tratamento científico dado a medicamentos. Não existe nenhuma explicação plausível para o povo continuar se medicando com esses remédios que já foram considerados ineficazes por praticamente todas as agências científicas sérias. Não apenas a OMS, mas também a FDA, dos EUA, EMA, da União Europeia, entre tantas outras. É válido ressaltar que os próprios fabricantes da hidroxicloroquina e da ivermectina não recomendam o seu uso para este fim, não obstante já foi verificado que não há nenhuma contribuição para a melhora dos casos.

O uso indiscriminado, sem o devido acompanhamento, está matando pessoas que possuem alguma doença preexistente e que possam ser agravadas utilizando esses remédios. Eu conheço uma pessoa que, no início da pandemia, se entupiu de cloroquina e veio a óbito, não pela COVID, mas, sim, por problemas cardíacos. E naquela época, ainda nos ensaios clínicos, existia alguma chance de esse medicamento ter alguma utilidade, porém, hoje, não há o que se discutir.

O mundo, por mais conectado e tecnológico que esteja, trata a ciência de uma forma nunca antes tão desrespeitosa. Fake news são propagadas todos os dias para contaminar o debate e iludir os cidadãos. Quantos, no início da pandemia, acreditaram na imunidade de rebanho? Manaus foi a prova cabal de que novas variantes colocam por terra essa teoria. Milhares de pessoas morreram sem oxigênio por estarem desamparadas. Sobravam remédios do “tratamento precoce”, faltava o básico: oxigênio, leitos e bom senso.

Como brilhantemente afirmou a médica Luana Araújo: “Quando eu disse que um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular, não tem lógica”.

Se não respeitarmos a ciência e o método científico, aperte o cinto porque uma terceira onda, mais mortal e terrível, virá aí. Neste momento, é muito importante saber: você está em alguma borda da terra plana ou você está no mundo real? Essa escolha poderá fazer toda a diferença para a sua sobrevivência.

 

 

Nota do colunista: No próximo episódio abordarei sobre o nosso sistema eleitoral e o de votação. Até lá!

3 Comentários

  1. Tânia Maria Alves Helou disse:

    É muito importante que esses fatos sejam bem esclarecidos, em tempos de fake news o óbvio precisa ser dito e repetido quantas vezes forem necessárias, até serem compreendidos. Excelente sua explanação.

  2. Maria Dalci silva disse:

    Explicação clara, só não entende quem faz questão de não acreditar na ciência
    Parabéns 👏🏼👏🏼👏🏼

  3. Maria Dalci silva disse:

    Excelente colocação , parabéns 👏🏼👏🏼

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