Domingo, 21 de Abril de 2024 Fazer o Login

1964, Três de Março, por Inocêncio Nóbrega

sex, 28 de fevereiro de 2014 00:00

Inocêncio Nóbrega (*)

Imaginemos a manhã 3 de março,  deste ano,  sem Carnaval! Essa a razão pela qual a Comissão da Verdade da Paraíba resolveu antecipar para 19 de fevereiro a Audiência Pública, lembrando os 50 anos dos acontecimentos da Faculdade de Direito, então no centro da cidade de João Pessoa, nessa data.  Em geral, os paraibanos têm ideia dessa ação, autóctone, encabeçada pelos estudantes, secundaristas e universitários, mas que tomou corpo com a adesão da juventude nacionalista de diversas categorias.

Patrícios, de várias estadualidades, têm todo direito de saber que não foram, apenas, a insurgência dos marinheiros e fuzileiros navais, na sede do sindicato dos Metalúrgicos aliás, engendrada pela Cia, e nem o célebre Comício da Central do Brasil, ambos no Rio de Janeiro, que aceleraram o golpe de 1º de abril. Certamente, noutras capitais e maiores cidades a palavra de ordem era pela manutenção de um governo que defendia os interesses da Nação, civicamente alicerçada pela Campanha da Legalidade, de 1961. Acredito que a Lei de Remessa de Lucros apavorou as forças retrógradas, que tinham no governo Carlos Lacerda a liderança civil. Portanto, qualquer movimento que se fizesse nessa direção, nas ruas cariocas e paulistanas, teria ampla repercussão no restante do Brasil. Semelhante na campanha do 7 de Setembro, pois o Grito de D. Pedro só se manteve pelo sangue derramado de heróis de outras regiões.

Governante do estado da Guanabara, conhecido pela matança de mendigos, pretendeu visitar João Pessoa, vindo de Salvador, naquele início do mês, a fim de articular o golpismo entre seus correligionários. Ciente de que no momento ocorria,   não desembarcou no Aeroporto. Desesperados, lacerdistas e capangas armados de usinas próximas, comandados por dois deputados estaduais, se postaram diante do prédio em que nos encontrávamos, a fim de nos alcançarem. Todavia, contidos por efetivos do Exército e da Polícia. Indefesos, fomos detidos no QG da PM, para averiguações. Sem democracia, amargamos inquéritos, novas detenções e aos universitários, eu dentre eles, canceladas nossas matrículas, por um ano.

Cabelos grisalhos, remanescentes do grupo, originalmente 26 ao todo, narraram passagens e instantes de aflição vividos naquele episódio. Ficou a lição, embora de somenos importância para alguns historiadores nacionais, de um dever cumprido, que precisa ser assimilada, não só pelas novas gerações conterrâneas, porém do Brasil inteiro. A Comissão da Verdade está fazendo a sua parte, mas também cabe a outros órgãos de cultura e à mídia independente divulgá-lo e reconhecer nossas intenções de patriotismo, ainda latentes, isso ficou demonstrado nessa homenagem, perante um auditório lotado, onde tudo aconteceu.

*Jornalista/ inocnf@gmail.com

Nenhum comentário

Deixe seu comentário: