Os rebeldes da cidade, por Francisco Luciano Teixeira Filho
sáb, 13 de dezembro de 2014 00:04* Francisco Luciano Teixeira Filho
Em agosto desse ano, uma editora paulistana publicou a tradução brasileira do livro Cidades Rebeldes, de David Harvey, geógrafo britânico de grande prestígio, professor da CUNY, Universidade da Cidade de New York. Nele, seu autor retoma uma discussão que parecia, há muito tempo, morta: o cidadão que reivindica a cidade, seguindo o alinhamento marxista do francês Henri Lefebvre.
Nos últimos anos, a questão da ocupação dos espaços públicos por uma população revoltada se tornou pauta mundial. Desde a Primavera Árabe, passando pelas revoltas nos EUA, Espanha, Grécia, China, Chile, entre tantos outros países, até mesmo as Manifestações de Junho de 2013, no Brasil, uma população cada vez mais insatisfeita e, portanto, mais rebelde, tem se tornado cenário urbano frequente nas grandes cidades do mundo. Essa condição é trazida, por Harvey, como uma resposta imediata da forma de urbanização que constituímos ao longo da história.
As cidades, no geral, se construíram, com sua infraestrutura e espaços de lazer, de costas para a periferia. Um simples passeio dentro de Fortaleza comprova a mudança radical do cenário urbano entre o Autran Nunes e o Meireles; entre o Jangurussu e a Aldeota; entre Bom Jardim e a Água Fria. Harvey, para explicar tal fenômeno, não se vale de subterfúgios: o desenvolvimento desigual das cidades é causado pelo desenvolvimento desigual do sistema econômico capitalista.
A revolta geral dos últimos anos, que rondou o mundo como um espírito, causando terror à muitos, para Harvey, foi uma consequência direta da dificuldade que uma grande parcela da população tem para ter acesso às condições mais básicas de vida na cidade. A luta, portanto, só pode ser aquela que aponta para uma forma de urbanização mais justa, onde o direito à cidade seja comum à todos e a qualidade de vida não seja uma prerrogativa de quem tem dinheiro. Nesse sentido, saneamento, pavimentação, transporte público de qualidade, paisagismo, enfim, não devem ser direitos de certos bairros, mas de todos os habitantes da cidade. Mas isso permanecerá utópico enquanto a ideia de direito, no sentido mais amplo, não for estendida à todos.
Por fim, uma ideia constrangedora deve ser destacada no livro de Harvey: “o tipo de cidade que queremos não pode ser separada da questão do tipo de pessoa que queremos ser” (p.28). Ora, o constrangimento dessa ideia se põe, pois, no geral, temos por nós mesmos a mais alta estima, mas quando observamos o nosso meio ambiente, ou seja, a cidade, percebemos que ela não condiz com nossa imagem própria. O que deu errado, então? Por que aquilo que julgamos ser não condiz com aquilo que fazemos? Será que a cômoda solução de colocar a culpa no outro não é uma maneira de nos eximirmos da culpa que é nossa? A cidade que queremos, portanto, pressupõe uma revolução fundante: qual o homem que queremos?
* Professor de Filosofia
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