Ficha Técnica – Quem será o próximo?
qua, 15 de fevereiro de 2017 05:00
Uma torcedora atravessa uma viela num fim de tarde de verão. Os chinelos da Adidas sustentam os pés desgastados, enquanto o vestido da Farm alivia o ar abafado entre os poros. O caminho de volta para casa parece comum, até que uma senhora se aproxima. O coração dispara, a garota aperta o passo e as mãos quentes são tomadas pela frieza de uma pedra de mármore. Um filme penumbra sobre a sua cabeça. Eis que o inevitável acontece. A menina é abordada, mas se surpreende. Tudo que a moça desconhecida buscava não passava de uma informação. De resto, ela era apenas da pele negra.
Dados indicam que um cidadão de bem comum possui, no mínimo, oito chances a mais de ter os sentidos atrapalhados pela força da imaginação quando se vê defronte o preconceito e a hipocrisia. A reação da jovem torcedora dos chinelos importados apenas reflete uma condição de refém herdada desde os primeiros chutes na barriga. Na TV de sua casa, a negra sempre vestiu uniforme de empregada, o torcedor violento é da pele escura, e programas de polícia e ladrão vez ou outra encerram com um final feliz se o crioulo é enjaulado com o gatilho em suas entranhas. Quão brancos e limpos eram os lençóis da Ku Klux Klan.

O futebol na mira de uma sociedade que decide o jogo com as armas que têm
Entretenimento, diversão. Um anônimo é deitado de bruços com uma boca de pólvora no pescoço e acorrentado em seguida rumo a uma cela sem saber o que é escravidão. Seu destino é ser exterminado da sociedade e apagado sob as condições subumanas da prisão. Não basta ter a liberdade aniquilada. O que vale é a punição. Linchamento. Mais uma vez, o Estado falhou. Insegurança pública. Está declarada a guerra às drogas, às torcidas organizadas e aos moribundos de plantão. Bancada da bala. Gás de pimenta, tiro de borracha. Chamem as Forças Armadas! O país que abraça um partido como um time de futebol leva na esportiva quando outro negro é morto no presídio ou nas arquibancadas.
Escândalo, espetáculo. O efeito colateral de Chapecó passou como um tirombaço de Roberto Carlos no Torneio da França de 1997. Ninguém viu. Enquanto isso, facções se infiltram em torcidas, o Estado lucra com a criminalidade e as federações mantêm suas dinastias. Calamidade pública, encarceramento em massa, indignação seletiva. Quão espantoso é um empresário branco na cadeia? Os arredores do estádio dão lugar a uma batalha campal. Cenário de desordem, impunidade, ataque medieval. Foram para cima do torcedor rival com uma pedra e um pedaço de pau. Mas pouco disso importa se logo mais tem Carnaval.
No último domingo, o botafoguense Diego Silva dos Santos, de 28 anos, apareceu na ficha técnica de Flamengo e Botafogo. Do estádio Nilton Santos para o Hospital Salgado Filho. Nem herói, tampouco vilão. Outro torcedor endossado em estatística, num círculo vicioso movido entre estádio, presídio e cemitério. O futebol imita a vida, cuja importância pede passagem mediante cada privilégio. Morreu mais um. Foi baleado no peito em dia de clássico. O pior capítulo de um jogo. Mas qual seu nome mesmo? Da noite para o dia vira-se a página. Quem será o próximo?
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