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Ficha Técnica – Meu time em 2016

qua, 23 de março de 2016 08:42

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Um frenesi ressoava pelas ruas. Discursos frios e discussões acaloradas pernoitavam. Estádio, cinema, fila de banco, plenário ou na mesa de jantar. Não havia inocente, nem por quem jurou fidelidade à Justiça, tampouco entre justiceiros de plantão.  O jogo seguia, e a cada lance me perdia em meio às turvas águas de março de 2016.

Quem explica o ano de 2016? (Foto EPA)

Quem explica o ano de 2016? (Foto EPA)

Lembro-me das aulas de história na escola, quando o professor Dimas se esforçava para ensinar que quem vivia de passado não era só museu. Flamenguista de coração, ele misturava algumas lembranças de Zico e Ayrton Senna e trazia coisas novas sobre a guerra do golfo, golpe militar e capitanias hereditárias. Certamente, não esperava que ainda vivesse dias mais confusos que uma propaganda de funerária.

Tinha presidente dos Estados Unidos discursando ao vivo direto de Cuba.  Autoridades do esporte brasileiro na cadeia. Grampo telefônico. Fla-Flu no Pacaembu. Jogador da China na Seleção. Réu de corrupção julgando alguém pelo mesmo crime. Coxinhas, fascistas, comunistas e clubistas de volta à tona, e Douglas, o campeão de tudo, tranquilo e favorável no treino do Barcelona.

Naquela época, pessoas se eximiam de vestir azul, vermelho, preto ou amarelo por receio de endossar um movimento. Brigas políticas ocupavam o lugar das resenhas no bar de domingo. Casais discutiam sua relação ideológica. Torcidas entoavam cantos e empunhavam faixas, como se o mapa-múndi da corrupção se resumisse a apenas um partido político.

Uma cortina de fumaça fechou o verão. Sob jogadas orquestradas com a maestria de um Santos bicampeão mundial em 63, as águas de março um dia cantadas por Tom Jobim chegavam ao fundo do poço em 2016. Assim, em meio a um país movido por desigualdade, intolerância e desrespeito à própria memória, decidi torcer apenas por nossos futuros professores de história.

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