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Ficha Técnica – Abaixo o jogador de bem

qua, 9 de março de 2016 08:19

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Domingo. São quatro da tarde. Nos jornais, manchetes sobre a Lava Jato. Na tevê, jogo de campeonato. Entre um café e outro, deparo-me com um dos meus inimigos mais sombrios. Algumas coisas condenam-me à frustração. O pote de sorvete que era feijão, o escanteio curto ou o chamado cidadão de bem, aquele que preza pelos valores, bons costumes e pela famigerada família tradicional. Para quem?

O encontro das gerações Coca-Cola e 7 a 1 (Divulgação)

O encontro das gerações Coca-Cola e 7 a 1 (Divulgação)

 

Há muito, vejo pessoas dirigirem pelas ruas, promoverem coquetéis e perambularem por lojas de grife. Hoje, elas invadem estádios, envergam uniformes e até bradam o hino nacional. Se um dia os “cidadãos de bem” foram fruto da geração Coca-Cola, da geração 7 a 1 nascem os “jogadores de bem”.

Cidadão de bem veste terno Armani e reclama da corrupção, mas fura fila, sonega impostos e suborna o primeiro que pedir sua habilitação. Jogador de bem tira selfie, usa chuteira colorida e protesta contra um governo revoltante, mas se cala quando o presidente de sua confederação é preso em flagrante.

Cidadão de bem se queixa da violência, mas maltrata a mulher, xinga ciclista e buzina no trânsito engarrafado, ainda que sequer ouse entrar num ônibus lotado. Jogador de bem comemora os três pontos e vai embora em seu carro importado, mas fecha os olhos para o antigo campo de pelada, hoje condomínio fechado.

“Cidadão de Bem” era o nome do extinto jornal da Ku Klux Klan, grupo norte-americano que pregava o ódio ao negro e a supremacia branca. Jogador de bem é quem não vê a desigualdade que tanto no país como no esporte lhe é escancarada. Algo que em nome da natureza, o saudoso uruguaio Eduardo Galeano um dia diagnosticava – “Se fosse um banco, teria sido salva”.

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