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Águas franciscanas, por Inocêncio Nóbrega

ter, 18 de novembro de 2014 00:02

* Inocêncio Nóbrega

Pernambuco foi vítima da primeira seca, de 1583, constatada pela história. Outras tantas registraram-se nos séculos seguintes, ceifando milhares de vidas humanas, vergastando, impiedosamente, animais, comprometendo precárias culturas, alarmando o poder público.  O governo colonial tinha ciência dessa disfunção climática, adotando tênues medidas de combate aos seus efeitos. No Império, em 1856, criou-se a “Comissão Científica de Exploração”, recomendando, pois, construção de açudes por particulares. Nesse bojo, estudos indicavam a transposição das águas do S. Francisco para a bacia do Jaguaribe, no Ceará. Três anos depois, D. Pedro II resolve visitar, in locun, a situação.
Viaja ao nordeste. Na comitiva, a Imperatriz Tereza Cristina e o ministro de Negócios do Império, Almeida Pereira Filho. Por onde passou, Bahia, Alagoas, Pernambuco e Paraíba, era recebido com ruidosas manifestações de carinho. Em Penedo, pôde conhecer a foz do Rio S. Francisco. Na Paraíba – era véspera de Natal quando chegou.  Salva de tiros, Te Deum na Catedral, por seis dias muita festa e delírio da população. De volta, inteiramente senhor do flagelo das secas. Tão impressionado ficou que teria declarado que empenharia a coroa imperial em favor de uma solução às constantes crises.

Governantes da República conheciam essa mensagem, optando por providências emergenciais e recorrentes, como a criação de órgãos, direcionados para a problemática da região. Só a partir de 2012, enfrentando protestos, greve de fome de religioso estrangeiro e vozes discordantes, inclusive de parte do nordeste, o presidente Lula encarou o projeto da transposição como meta prioritária.  Quão alegria de ver-se, agora, o secular sonho se tornar realidade. A internet mostrou, recentemente, imagens das águas correndo ao encontro do primeiro reservatório, após serem bombeadas à altura de 62 metros,  conduzidas por canal a um aquaduto, que fica por cima de uma rodovia, percorrendo mais 10km de canal até despejarem no primeiro reservatório. Os testes iniciais deixaram satisfeitos técnicos e trabalhadores. A conclusão dos trabalhos, nos dois Eixos projetados, está prevista para 2015, pela presidenta Dilma.

De Minas Gerais, na Serra da Canastra, se origina o Rio. Ao grandioso irmão federativo cabe uma reciprocidade compatível com seu gesto humanitário e de irmandade. Isso é possível fazendo bom uso dessa água, a começar por evitar o desperdício. Às autoridades e às comunidades dos estados receptores caberá a tarefa de promover campanhas educativas, através da mídia e nas escolas, realizando seminários e palestras, no concernente ao seu uso e real destinação. É mais que uma obrigação fazê-lo.

* Jornalista
inocnf@gmail.com

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