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A vó Justa, por José Roberto Peters

qui, 20 de novembro de 2014 00:03

José Roberto Peters *

A vó Justina — vó Justa, como muita gente chamava — era mãe do meu pai. Ponto de equilíbrio de uma família que tinha poloneses, alemães e ucranianos, gente que historicamente nunca se deu muito bem. Era cafuza: negra com aquele cabelo e as feições de índio. Linda. Apesar de sua descendência afro-indígena, e provavelmente pelo sobrenome português que trazia, era uma católica fervorosa.

De pouca instrução — foi à escola pra aprender os rudimentos da leitura e da escrita — tinha muito a ensinar. Viveu uma religião libertadora, que pregava o cuidado aos mais necessitados. Hoje, bem longe no tempo, os netos se dão conta que a vó vivia pela teologia da libertação, que via todos como iguais e que alguns precisavam de mais cuidado que outros.

Em orações — que fazia antes de dormir, e em voz alta — nunca pediu nada mais que trabalho e saúde pra todos. E agradecia cada dia como se tivesse recebido o maior presente: estar ali. Simples assim. Ajudou a olhar os netos todos e em certa época cuidou de mim, o mais velho, e do Fred, o mais novo. Eu tinha ido pra Joinville estudar e o Fred acabava de nascer.

Pensa que era difícil? Pra ela não. Cuidava igual, mas “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”, como se um dia tivesse lido Marx. E com sabedoria — como se tivesse lido Françoise Douto sobre as relações entre adultos e crianças — pegou o Fred com um livro de cálculo e, sem alarde, mas com voz doce, disse ao guri que apenas engatinhava: “esse livro é do Beto”. Pronto, e o menino — que se tornaria um adulto com gosto para os estudos — veio engatinhando e me entregou o livro.

Um dia nos deixou. O tempo passou e a saudade dela passou a fazer parte da gente. E uma coisa que sempre comentamos é que, fosse ela viva, ficaria espantada com algumas coisas: com gente que, sem conhecer nem o Brasil, grita raivosamente na rua que uma pessoa de camisa vermelha tinha que ir morar em Cuba; gente que despreza quem olha primeiro para os mais necessitados; gente que se acha superior a outra gente; gente que se diz religiosa incitando muitos com discursos homofóbicos.

Porém, diferente de muitos de nós, e bem ao seu estilo, em suas orações ia pedir por todos. E quem sabe não fosse atendida.

José Roberto PetersMestre em Educação Científica e Tecnológica, professor universitário e consultor técnico da OPAS no Ministério da Saúde.

2 Comentários

  1. Weber disse:

    Afinidades eletivas, Beto… Memórias afetivas… Belo texto!

  2. Viviane disse:

    Lembranças…essas sensações de que algo de bom nos aconteceu em um tempo remoto nos provoca uma certa nostalgia e nos remete à um tempo em que tudo era tão bom, saudável e sem muitas preocupações Faz lembrar o quanto éramos bem tratados, acarinhados e protegidos e felizes com nossos avós. É claro que no íntimo tínhamos as nossas preferências, empatias estas, talvez por uma convivência mais próxima, onde se concretizou em um sentimento tão nobre que nos deixa refletir se a atual juventude sabe ou tem alguma noção sobre o verdadeiro sentido da palavra amor. Lembranças das brincadeiras saudáveis, das boas risadas, e porque não, das correções feitas meio que ríspidas, mas que sabíamos que era para o nosso bem e que nem por isto deixávamos de amá-los, principalmente por suas simplicidade de vida, porém uma vida digna e calçada pelo trabalho e amor. Essas coisas que temos o maior carinho por lembrá-las sempre ficarão guardadas não só na memória, mas eternizadas em nossos corações. Gostei do texto. Parabéns!

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