Ficha Técnica – Reunião de pauta
qua, 3 de maio de 2017 05:32
Belchior dizia que o passado é uma roupa que não serve mais. “Precisamos todos rejuvenescer” – porém assim como ele, não posso deixar de dizer. Pasmem! Quem pensa diferente não é inimigo. Greve geral é causa de todos e cobrar por direitos não é sinônimo de vagabundagem, ainda que o destaque seja para o seu João que acorda diariamente às 4h. À margem da guerra, um menino registra o protesto pela morte do amigo Pedro, de 13 anos, baleado enquanto ia jogar videogame no vizinho. Ao fim da transmissão, exerceu o jornalismo que tanto sonhava, mesmo que indigesto pelo gás de pimenta. “Alerta! Não subam pela estrada de Itararé! Tiroteio entre policiais e bandidos!”. Mas se bandido é o trabalhador, então quem somos nós?

Registro de protesto no entorno do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília
Dados indicam que o jornalista brasileiro é o segundo que mais corre perigo no mundo, atrás apenas dos profissionais do México. Além da imagem de baixa qualidade, o garoto que transmitia a manifestação também teve que se virar entre bombas de zero efeito moral. Outro vizinho não teve a mesma sorte. Morreu de bala perdida, aos 16, sem saber que perdidos estávamos todos. Enquanto tudo aquilo acontecia, a Helena ameaçava o Dr. Paulo em Escrava Isaura, na Record. Na Globo, Amanda entrava para a Galáxia do Axé em Rock Story, ao passo que a sonda espacial Cassini mergulhava numa manobra inédita nos anéis de Saturno, no Jornal da Band. Nada de plantões, boletins, alarmes tenebrosos. Nenhum pio.
Outro dia, Roberto Cabrini, colecionador de prêmios como repórter investigativo, com seis guerras no currículo, disse-me que é impossível sermos imparciais um dia, mas sempre precisaremos almejar a imparcialidade. Das favelas nas metrópoles ao jogo de interesses do interior, exercer o jornalismo é um desafio diário, inclusive para questionar ao ver um político de Araguari defender outro de Uberlândia citado na lista de corruptos da Odebrecht. Ou quando se procura os verdadeiros motivos de o principal ginásio da cidade permanecer interditado após quase dez anos e prestes a ser inaugurado pela mesma gestão que iniciou o projeto.
Na semana anterior, depois da “Batalha de Montevidéu”, o técnico do Palmeiras, Eduardo Baptista, exigiu que os jornalistas, em especial Juca Kfouri, revelassem suas fontes de informação em alusão à polêmica envolvendo a escalação do atacante Roger Guedes, que foi retirado da concentração da equipe. De fato, ele não é obrigado a saber que o artigo quinto do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros garante ao profissional o direito de resguardar o sigilo da fonte. Ainda assim, ele gritou, esbofeteou a mesa de entrevista e, furioso, cobrou veementemente o nome do culpado.

Técnico Eduardo Baptista, do Palmeiras
A ação movida por destempero e falta de conhecimento para um estudioso da bola, como o treinador do Palmeiras, nada mais é que a reprodução daquilo que tropeçamos a cada esquina. O culpado é a fonte da informação e não o teor nela inserido. Queria mesmo é viver num conto de fadas, em que as estorinhas começassem com “era uma vez” e encerrassem com um final feliz. Todavia, os personagens de hoje somos nós e o desfecho será sempre incerto, a menos que a pauta principal seja o Caetano Veloso estacionando o carro no Leblon.
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