O Vale de lama da nossa ignorância
qua, 18 de novembro de 2015 08:57por Weiny César Freitas Pinto
Araguarino, prof. Filosofia UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
Não é, exatamente, por falta de informações que nós, cidadãos comuns, não compreendemos bem o que ocorreu em Mariana, Minas Gerais; talvez, seja mesmo o tendencioso excesso delas que nos impeça de ver com maior clareza o que tudo isso, realmente, representa.
Na verdade, provavelmente, estamos diante do maior crime (não é desastre natural, não é tragédia, não é acidente!) ambiental de nossa história e é simplesmente assustadora a enorme apatia com a qual, nós mesmos, bem como as nossas tantas autoridades culturais constituídas, políticos, líderes religiosos, intelectuais, artistas, membros da famigerada iniciativa privada etc., lidamos com os fatos. Nesse ponto, o individualismo ignorante de nossa sociedade é ardilosamente regido, tal qual em uma orquestra de drama, pelos senhores das minas que têm nas mãos grande parte do Congresso, dos Governos e, quem sabe, da Justiça. Definitivamente, um espetáculo de horrores que não vale a pena assistir!
Mensurar a real gravidade dos danos ambientais só é possível aos especialistas, embora todos saibam dimensionar minimamente a seriedade do problema. Estabelecer planilhas justas de indenização material, isso, além de obrigação moral, não é, em si mesma, uma tarefa difícil, mas sabemos bem que estas “políticas indenizatórias” sempre se transformam num verdadeiro vale de lágrimas para os “indenizados”. Enfim, calcular os prejuízos humanos, de tão grandiosos e variados que são, quiçá a história possa um dia fazê-lo com a máxima justiça possível.
Que resta então a nós, cidadãos comuns, não vítimas diretas desse atentado, fazermos?
Resta-nos sim, nos solidarizar por meio de doações, mas também é preciso politizarmos criticamente a questão: que se amplie o horizonte crítico e se deixe vir à cena a crítica política da ineficiência e irresponsabilidade da iniciativa privada.
Resta-nos sim, nos engajarmos em protestos de rua e de mídias, coletivos de perfomance, grupos de trabalho etc., mas também é necessário ordenarmos ações de modo a potencializá-las ao máximo enquanto fins políticos institucionais.
Resta-nos sim, o debate diário sobre o tema com colegas de trabalho e lazer, nas mesas do almoço, nas Igrejas, Escolas, Bares, outros, mas, finalmente, é imperativo o reconhecimento de nossa ignorância, só ela explica a nossa apatia, no fundo, só ela explica radicalmente o que aconteceu.
Elizeu Vaz
Araguarino, empresário
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Belo texto que vai direto ao ponto. Lá está nossa ignorância, em um certo sentido voluntária, na base da apatia e, finalmente, de desastres como estes que estão longe de serem propriamente naturais. Parabéns ao autor.