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O massacre da paz celestial

qui, 11 de junho de 2015 08:42

Amadeu Garrido de Paula

 Advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho. 

Há 26 anos, a China mandou tanques à rua contra estudantes. Massacre sem paralelos. Mortos, feridos e prisioneiros até hoje. De lá para cá, o Partido Comunista chinês aderiu ardorosamente a um capitalismo selvagem. Cresceu como todos aqueles que se valem de concorrência desleal. As leis trabalhistas teriam sido criadas mais para uniformizar a concorrência internacional do que para respeitar direitos humanos e sociais básicos. Vulnerá-las é progresso mundial.

O crescimento da economia chinesa abalou o mundo. País enorme, de população incomparável, trabalhadores submetidos a um regime de produção implacável. Não há controle de jornada de trabalho. Há controle do tempo em que trabalhadoras e trabalhadores vão ao banheiro, devidamente acompanhados de um gendarme estacionado às portas das cloacas.

Implacabilidade no pisoteio do devido processo legal e do princípio da ampla defesa. Em estádios repletos de acusados, advogados, em poucos minutos, são obrigados a defender dezenas ou centenas. Todos invariavelmente condenados, muitos deles à pena capital. Há quem, no Ocidente, saudosos dos piores tempos medievais, atribua às liberdades públicas a maior parte dos males contemporâneos, sonhadores das execuções tais como as chinesas. Quem furtou deve ter a mão amputada. Aqueles que não se ajustam à sociedade devem ser deportados, ainda que muito jovens. Falar contra um regime tão perfeito, jamais.

Enriquecer é glorioso, dizem próceres do PC chinês. Esse rico, certamente no poder, é o “homem novo” de que falou a teoria marxista. Solidário, humano, igualitário. Sua riqueza não implicou em transferência de renda e na pobreza daqueles que não homenagearam o Partido, o dinheiro brotou nas cerejeiras, “rectius”, nas gavetas do Partido todo poderoso.

O acúmulo de riquezas se complementa pelo domínio do mercado externo por uma avalanche de produtos acabados, mal acabados, sem desconsiderar os commodities. Estes, ainda provenientes do trabalho de sol a sol de um campesinato sem eira nem beira.  Assim se assenta o progresso incrível da República Popular da China. O comunismo de poucos comuns e exploradores realizou a utopia dos explorados da revolução industrial e do Manifesto.

Riqueza ao custo da liberdade. Esta é um luxo pequeno-burguês. Certamente, não para os poderosos, que dela desfrutam. A China superou os desvios da revolução cultural, a grande fome, a matança dos pardais. Demonstrou ao mundo como acumular riqueza. Pouco importa se não é riqueza espiritual e intelectual da maioria dos homens. Pouco importa se beneficia os donos da organização partidária. A vida é só esta, material e nada passageira. Nascer, crescer, enriquecer e morrer. Fica apenas o paradoxo do nome: praça da paz celestial.

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