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A vida e a imortalidade

qua, 27 de maio de 2015 10:56

“Deus não gosta que resmunguam, mas abençoa aqueles que carregam a sua cruz cantando” (Teólogo e Cardeal Mercier)

Diomar Freire

Formado em filosofia e funcionário público aposentado.

Eu aprendi ao longo dos estudos, que todas as ciências que regem os costumes de vida, como a teologia e a filosofia, nos orientam para o caminho que devemos seguir.

E não há no mundo força maior que o pensamento, para fazer o bem ou o mal. “O homem é aquilo que ele pensa”, diz a sabedoria da sagrada escritura. Portanto, devemos caminhar sempre para o caminho do bem. Mas, geralmente, a natureza humana é ingrata com Deus e o próximo. O exemplo maior que a humanidade presenciou foi a traição de Judas com o Mestre. Ele se arrependeu pelo ato de traição, mas não se converteu e praticou pior, tirou a sua própria vida. Converter-se é detestar o mal e fazer o bem para sempre. O arrependimento, não. Arrepende de um pecado hoje, e no dia seguinte comete novamente. Pedro se converteu somente com o olhar humilde e piedoso de Cristo quando carregava a cruz.

Essa cruz sagrada todos nós carregamos em nossa vida em diversos momentos: na angústia, no sofrimento, na dor, na doença, na saudade, principalmente os entes queridos que partiram deste mundo. É nessas horas que procuro nas páginas de livros de autores espiritualistas a paz e a felicidade. Eu as encontro através da leitura.

De todos os pensadores e espiritualidades, o filósofo Sócrates é um dos maiores. Vivia em Atenas antes de Cristo. Na velhice foi condenado à morte, inocentemente. Enquanto aguardava no cárcere o dia da sua execução, seus amigos e discípulos moviam todos os esforços para salvá-lo da morte.

O filósofo, com calma e paz de espírito, aguardou o momento em que ia beber o veneno mortífero.

Na véspera da execução, conseguiram seus amigos subornar o carcereiro, que abriu a porta da prisão.

Críton, o mais ardente dos discípulos de Sócrates, entrou na cadeia e disse ao mestre: foge depressa, Sócrates! Fugir, por que? – perguntou o preso. Não sabes que amanhã te vão matar? Matar-me? A mim? Ninguém me pode matar! Sim, amanhã terás de beber a taça de cicuta mortal, insistiu Críton- vamos, mestre, foge depressa para escapares à morte! Meu caro amigo Críton – respondeu o condenado, que mau filósofo és tu! Pensar que um pouco de veneno possa dar cabo de mim.

Depois, puxando com os dedos a pele da mão, Sócrates perguntou: Críton, achas que isto aqui é Sócrates? – e, batendo com o punho no osso do crânio, acrescentou: – Achas que isto é Sócrates?…Pois é isto que eles vão matar, este invólucro material; mas não a mim.

Eu sou a minha alma. Ninguém pode matar Sócrates!… E ficou sentado na cadeia aberta, enquanto Críton se retirava, chorando, sem compreender o que ele considerava teimosia ou estranho idealismo do mestre. No dia seguinte, quando o sentenciado bebera o veneno mortal e seu corpo ia perdendo aos poucos a sensibilidade, Críton perguntou-lhe, entre soluços: -Sócrates, onde queres que te enterremos? – Ao que o filósofo, semiconsciente, murmurou: já te disse, amigo, ninguém pode enterrar Sócrates…quanto a esse meu invólucro, enterrai-o onde quiseres. Não sou eu… eu sou a minha alma.

No momento final, o filósofo pronunciou esta frase mundialmente conhecida: “Conhece-te a ti mesmo”. Está escrita no frontão do templo de Apolo, em Deffos, na Grécia. Só quem se conhece tem condições de vencer-se. Os inimigos do homem, disse Jesus, são os seus domésticos, os falsos amigos, os que lhe habitam o íntimo. Vencer os inimigos de fora é tarefa menor do que superar os de dentro.

São Paulo, Santo Agostinho, Pascal, Paulo Setúbal, escreveram páginas de inexcedível lucidez e de rara beleza sobre esse campo de batalhas interior, onde o homem trava luta de todos os minutos em torno de seu contraditório destino. De todos os livros de memórias que li, a de Paulo Setúbal (avô do atual presidente do Banco Itaú), é a mais comovedora. Sua obra, “Confeteor” é de uma beleza imensurável. Era ateu e se converteu ao catolicismo. Foi o mais jovem acadêmico a entrar na Academia Brasileira de Letras, no ano de 1937. Morreu aos quarenta anos de idade. Tenho o livro “Confeteor” da 1ª edição (1934) que consegui na livraria em Curitiba em 1972 que tem assinatura dele. É a joia preciosa da minha biblioteca.

Padre Vieira, o maior mestre da língua portuguesa, na sua obra imortal “ Os Sermões”, narra uma passagem emocionante sobre a imortalidade. Certa vez, caminhando nas lindas praias de Sergipe, escreveu nas areias este belo poema: “A mim não me faz medo o pó que hei de ser o pó.” Eu não temo na morte. Temo a imortalidade.”

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