Livreiros e Bibliotecários, por João Baptista Herkenhoff
qua, 25 de março de 2015 00:11* João Baptista Herkenhoff
Não será por falta de datas comemorativas que o livro será esquecido. Quatro lhe são dedicadas: 2 de abril, Dia Mundial do Livro Infanto-Juvenil; 18 de abril, Dia Nacional do Livro Infantil; 23 de abril, Dia Mundial do Livro; 29 de outubro, Dia Nacional do Livro.
Além disso, dois profissionais que levam os livros às mãos dos leitores são lembrados em datas específicas: 12 de março, Dia do Bibliotecário; 14 de março, Dia do Livreiro.
Devo a uma bibliotecária grande parte do amor que adquiri pelos livros. Era a responsável pela Biblioteca Municipal de Cachoeiro de Itapemirim. Transmitia aos frequentadores o seu próprio gosto pela leitura.
Dona Telma, a bibliotecária de minha infância, faleceu subitamente, junto a seus filhos, na Praia de Piúma. Hoje está em outras paragens, cercada de livros azuis.
Assisti certa vez a uma entrevista do Ziraldo, na televisão, a respeito do livro. Ziraldo dizia que o livro nunca será substituído. Não há avanço da informática que o torne dispensável porque o livro tem mistério, um especial poder de comunicação.
O livro tem alma. Acho que foi isso que Ziraldo quis dizer. Uma coisa é ler um livro na internet. Outra coisa é ler um livro impresso da forma tradicional. Há livros que leio, e releio, e releio. Tenho a sensação de estar conversando com o autor. Escrevo notas à margem das páginas e nessas notas registro impressões: concordo; discordo; magnífico; esse Rubem Braga é mesmo um cachoeirense do barulho; esse Papa Francisco vai virar o mundo pelo avesso.
Neste final de página registro um fato ocorrido com Nestor Cinelli, o maior livreiro que o Espírito Santo teve em toda a sua história.
Entrou Cinelli numa livraria do Rio de Janeiro e ficou a manusear os volumes que estavam na prateleira. Uma determinada obra despertou seu especial interesse. Viu o preço anotado a lápis. Não dava para comprar. Nisto um senhor que parecia ser o gerente, indagou:
“Por que você recolocou na prateleira aquele livro que estava lendo?”
”Deixei onde estava, senhor. Meu dinheiro não é suficiente.”
“Deixe-me ver essas notas que você contou e recontou. Veja só. Contou errado. Esse dinheiro basta. Vá lá e pegue o livro.”
“Senhor, se vai me vender o livro por menos da metade do preço peço-lhe que o autografe. Nunca tive um livro autografado por um livreiro.”
E o livreiro então lançou o autógrafo:
“A este menino curioso, que será um grande escritor, ou um grande livreiro, com um abraço do Monteiro Lobato.”
* Magistrado aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, escritor e palestrante.
Autor de:Dilemas de um juiz: aaventuraobrigatória (Rio, GZ Editora).
E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com
Site: www.palestrantededireito.com.br
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520
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Sinto que embora compartilhe do gosto pela leitura, e “contagio” meus filhos por ela, muitos teimam em presentear com bonecas, bolas, etc , talvez subestimando o verdadeiro efeito de um bom livro.
Bom dia Professor,
Angústias de uma bibliotecária
Sou bibliotecária (atuo em uma escola de ensino fundamental) Hoje recebi via redes sociais com muita satisfação o seu artigo que fala sobre biblioteca e bibliotecários. Quero agradecê-lo por lembrar-se de nós bibliotecários em seu artigo, gostei muito.
Aos longos desses anos todos que sou bibliotecária (13 anos), tenho visto poucos artigos que fala de biblioteca e/ou homenageia o profissional bibliotecário, talvez você até encontre publicações em sites ou revistas da área, fora isso, são poucos ou quando tem são notas muito pequenas.
Caro professor, somos uma classe muitas vezes esquecida, e como disse no seu artigo “esse é um trabalho anônimo” onde muito de nós são vistos apenas como guardiões de livros e não como profissionais que podem fazer a diferença na vida de um leitor e/ou indivíduo. Poucas pessoas sabem que a biblioteca desempenha um papel que esta além da leitura ela é um espaço de convivência, logo, os profissionais que ali atuam podem fazer diferença na vida da comunidade onde ela esta inserida, um exemplo é o trabalho da bibliotecária Ana da Biblioteca pública Domingos Martins, ela desenvolve um trabalho maravilhoso na biblioteca com mulheres com depressão, assim como ela, poderia eu citar aqui vários outros exemplos.
Sabe professor, sempre ouvimos um discurso que é preciso ler, que a leitura é importante, que é preciso ter bibliotecas, porém a realidade quanto aos investimentos nesses espaços são mínimos, os profissionais bibliotecários que ali atuam têm que se equilibrar com um orçamento que em sua maioria mal dá para despesas básicas, acabam deixando de realizar ou fazem precariamente atividades que pra mim é a alma da biblioteca, que o que chamamos de dizamização do espaço, ou seja, “dar vida”. Pra mim, de nada adianta uma biblioteca ter toda uma estrutura ser não é dinâmica, dinamizar é realmente fazer dela um centro de cultura e lazer. E para isso é necessário recursos financeiros e humanos. Precisamos tornas as bibliotecas mais “atraentes”, menos “eletizada”, precisamos abrir suas portas para quem dela precisa.
Nos dias de hoje cada vez mais o acesso à informação está presente no cotidiano da sociedade brasileira, sendo entendido como direito do cidadão.
Através da internet nota-se o crescimento desordenado dos mais diversos tipos de informação. Por outro lado, ela possibilita dar visibilidade às mesmas com a ajuda das diversas tecnologias desenvolvidas tanto para a produção quanto para a organização dessa informação.
E observando esses aparatos tecnológicos, as crianças e jovens e até mesmos adultos, cada vez mais cada vez mais, vem trocando as bibliotecas estão por tabletes e celulares. A tecnologia tem o seu lado bom, mas o uso em excesso tem mostrado pessoas que se isolam e/ou vivem em mundos de faz de conta.
A biblioteca vem perdendo essa característica de espaço de convivência, onde as pessoas se encontram, conversa, riem e leem. Já os profissionais bibliotecários muitos deles vivem apáticos devido a falta de investimentos e falta de valorização. Os profissionais recém-formados vivem a desilusão de ver sua profissão ser tratada com tanto descaso pelos governantes, descaso este percebido aqui em nosso estado.
Fazendo uma análise mais crítica, hoje as pessoas preferem ir a shopping, os próprios pais não incentivam mais seus filhos a irem a estes espaços. Mas também “querido” (perdoe-me a intimidade) professor, não posso julgá-los, pois, quem vai querer ir a um espaço onde o acervo esta desatualizado, onde o ambiente não é agradável com estruturas precárias? Hoje as pessoas querem conforto também nas bibliotecas, as pessoas querem atividades diversas nesses espaços.
Logo, papel que uma biblioteca pública (com bibliotecários) desempenha e o impacto que ela pode causar na comunidade que ela esta inserida são de benefícios imensuráveis. Eu mesma trabalhei 1 ano no Setor Infanto Juvenil da Biblioteca Pública Estadual do Espirito Santo, ali eu via a diferença que aquele espaço fazia na vida das crianças/adolescentes que frequentavam o espaço, onde muito delas vinham de comunidades carentes como o Bairro Jesus de Nazareth que fica no entorno da biblioteca. Eu via ali o acesso ao livro de forma democrática, eu via o prazer e a satisfação dos usuários por estar ali e de poder pegar emprestados os livros e muito desses leitores talvez não tivesse condições de comprá-lo, pois sabemos que livro é uma coisa cara, muito cara.
É preciso incentivar o uso das bibliotecas, pois, o ato de frequentar uma biblioteca é cultural. Então, quando em seu artigo o senhor diz que não ha mais tantas bibliotecas públicas isso é uma triste realidade, e ainda tem umas poucas que estão tentando sobreviver, bibliotecas pequenas, com estruturas precárias e lá no meio disso estão eles, os bibliotecários, se reinventando para manter vivo aquele espaço.
Mas professor, nem tudo esta perdido, no meio disso temos ainda a biblioteca da escola, ela também contribui para este acesso ao livro, ela quando não tratada como uma obrigação dentro da escola, da mesma forma se torna um espaço de convivência, mas este espaço também as suas mazelas (que são muitas).
Muitas escolas não tem biblioteca, muitas bibliotecas escolares não possuem o profissional bibliotecário. Mas, mais a máxima proferida por gestores educacionais que “o menino precisa ler” e ler a qualquer custo esta o tempo todo sendo proferida. Um dos objetivos da biblioteca escolar é dar suporte ao trabalho do professor, mas muitos não percebem que este espaço também é um espaço de convivência, onde podemos ler, conversar e rir, onde a leitura não pode ser tratada como uma obrigação. Já obrigação da leitura, deixaremos para sala de aula.
A biblioteca escolar para muitas crianças que não tem acesso a livro, seja por não existir uma biblioteca pública em sua cidade ou até por que suas famílias não possuem a cultura de frequentar este espaço, torna-se o primeiro contato com os livros de forma democrática.
Então vimos na biblioteca escolar também a falta de uma politica pública voltada pra ela, mesmo tendo estudos dos benefícios dela, temos recomendações para o uso correto desse espaço através do Manifesto da IFLA/UNESCO para biblioteca escolar e ainda assim há tanto descaso. E pra mim um dos maiores descasos que ocorre no Estado do Espirito Santo quando falamos de biblioteca escolar e a falta de profissionais bibliotecários nas escolas estaduais, onde muitas escolas tem o espaço da biblioteca, onde possui mobiliário e acervo da melhor qualidade. O estado fez um investimento gigantesco nas bibliotecas escolares estaduais, através do projeto LEIA ESPIRITO SANTO, investiu-se em “coisas”, mas esqueceu das pessoas, esqueceu do profissional bibliotecário, esse mesmo, que dinamiza que contribui para que o espaço se torne um espaço de leitura, conhecimento e lazer. Das mais de 500 escolas estaduais, ambas não tem bibliotecários, conta-se nos dedos das mãos quantos bibliotecários escolares têm na educação estadual.
Portanto, no entorno da biblioteca e do profissional bibliotecário existem problemas latentes, estamos cada vez mais perdendo espaços, cada vez mais diminuem o número de bibliotecas públicas, sem falar nas livrarias que fecham e o sucateamento da biblioteca é visível anos após anos. E os profissionais bibliotecários? Que falar dele? Profissionais esquecidos num mundo de conhecimento? Profissionais estes desempregados porque governantes não abrem vagas nos espaços que são deles por direito. Profissionais desvalorizados.
Às vezes sinto-me cansada, eu estou trabalhando, mas não tenho como não me solidarizar com meus colegas, que ainda estão em busca de um lugar ao sol. Então quando vejo um artigo como seu, que traz ternas lembranças da “sua” bibliotecária de Cachoeiro, isso me dá alegria, pois, eu mesma timidamente fazendo minhas ações com tão poucos recursos, talvez um dia uma criança/adolescente vá lembrar-se de mim com todo esse carinho, e serei eu a “Dona Telma”, e apenas o fato de imaginar que isso pode ocorrer, me faz ter a certeza, que meu esforço vale a pena.
Se me permite o poeta…”Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”
Obrigada por lembrar-se de nós em seu artigo, a você o meu muito obrigada!
Saudações Bibliotecônomicas.
Vânia Oliveira
Bibliotecária escolar
(Vitória-ES)