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O capital, por José Carlos Nunes Barreto

ter, 3 de março de 2015 00:04

* José Carlos Nunes Barreto

As pessoas costumam afirmar que os economistas são arrogantes. Falam uma língua diferente, o economês, e tem linhas de pensamento conflitantes, e quando contrariadas pelos fatos, não são revistas pelos autores e seguidores. O tema de nossa reflexão hoje é baseado em uma leitura que fiz nas férias, e que julgo indispensável neste começo de século: “O Capital no século XXI” de Tomas Piketty- que não é arrogante, nem tem um discurso de economês, pelo contrário, é elegante, possui  um suave trato com as palavras, e apresenta competentes pesquisas sobre desigualdade de riqueza e renda, que inovam e impactarão o cenário da economia politica,   no século  XXI, tanto quanto Marx no século XX, daí  o sucesso editorial jamais visto em um livro de economia.

A principal força desestabilizadora da distribuição de renda  é o fato de a taxa de rendimento do capital privado  ser muito mais elevada que o crescimento dos salários e da produção, e se nada for feito, algo acontecerá de muito grave e revolucionário, envolvendo o despertar das massas prejudicadas . O trabalho é conclusivo, ao comparar as desigualdades de renda e capital no tempo e no espaço, ao redor do mundo, utilizando o coeficiente de Gini (indicador sintético de desigualdade que varia de 0 a 1–quanto mais próximo de 1 pior). Em 2010  este índice era 0,36  na Europa, 0,49 nos Estados Unidos,  e 0,19 nos países escandinavos – O PNUD órgão da ONU  avaliou o Brasil em  0,56- o 3º mais desigual. E o que mais me impressionou nas pesquisas de Piketty, é que pouco mudou desde a belle époque –  as  pequenas  mudanças  que  ocorreram foram exógenas (com ação de fora das sociedades estudadas –como por exemplo guerras) –via de consequência, a  desigualdade não mudou por ações de governantes, nem em países democráticos como Inglaterra e EUA. Como seria diferente por aqui?

Aprecio tabelas e gráficos com análise quantitativas e qualitativas para expressar resultados, o que o livro apresenta fartamente. No capítulo sete, por exemplo, em três tabelas, o autor mostra qualitativamente  que em 2010 , em termos de propriedade do capital, em todos países o índice médio de Gini foi 0,70 , enquanto que  para renda do trabalho foi  0,30  (menos da metade). Percebam que o indicador Gini de capital somado à  renda , mascara o poder dos rentistas, enquanto sabe-se que  esta desigualdade  é por demais potencializada com ações de patrimonialismo, corrupção e desvios de orçamentos públicos. Uma das sugestões de Piketty (Polêmica) é taxar os mais ricos com, por exemplo, impostos sobre grandes fortunas, de tal forma que o estado  lidere e reproduza uma distribuição mais equânime: os 10% mais ricos  ficariam  com 30%do capital nacional, os 50% mais pobres com 25% e os do meio com 45% (contra os atuais 10% mais ricos com mais de  50% de renda e capital ,os 50% mais pobres com menos de 20%).

Nas notas de conclusão, o autor dá uma estocada em textos consagrados de Sartre, Althusser e Baldiou – seguidores de Marx , que segundo ele, não apresentam com o mestre, soluções sobre a questão do capital e das desigualdades entre  classes  sociais, por  terem sido comunistas  engajados, e usarem esses dados para lutas de outras naturezas. Tudo isso faz muito sentido, ao olharmos para este seco, desigual  e esquecido País no lado de baixo do equador.

* Professor Doutor e presidente da Academia de Letras de Uberlândia-ALU
debatef@debatef.com

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