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A liberdade de expressão não é negociável, por Gilberto de Souza

qui, 22 de janeiro de 2015 00:04

* Gilberto de Souza

Milhares de manifestantes saíram às ruas de Paris,  e em outras capitais do mundo, para protestar em favor da liberdade de expressão.

De Berlim, onde milhares também foram às ruas neste domingo, em defesa da liberdade de pensamento e de expressão, a jornalista Luciana Rangel pontuou, em quatro idiomas, para não deixar dúvida:

“La Liberté de Parole n’est pas négociable. Meinungsfreiheit ist nicht verhandelbar. Freedom of Speech is not negotiable. A liberdade de expressão não é negociável”.

O que ocorreu na redação do Charlie Hebdo não deixa espaço para se relativizar nada. É imponderável. Queimar a sede do jornal Hamburger Morgenpost, que reproduziu, na Alemanha, as charges do CH também não é admissível na Europa ou em qualquer outro continente. Trata-se de pura barbárie. O fato é, no entanto, que pessoas matam, queimam, explodem e escravizam outras pessoas todo o tempo, nesses mesmos continentes em que não se deveriam cometer tais atos de vilania, que assaltam agora o mundo dito ‘civilizado’.

Também é fato que, diante da barbárie, seja ela qual for, onde for, levantar-se é dever de cada cidadão que ainda acredita ser possível transformar a realidade. Tal combate ocorre na África, sob o flagelo do Boko Haram, na Nigéria, e das tropas francesas, no Mali; no Oriente Médio, sob o califado do Estado Islâmico, e com o tráfico de armas dos EUA e da França aos extremistas muçulmanos que tentam derrubar o regime democrático da Síria; também na criminosa dominação israelense sobre os palestinos, há décadas; no Afeganistão e no Paquistão, subjugados pela sharia do Talebã ou por regimes corruptos impostos pela CIA. Nesses e em tantos outros países. É preciso, sim, que a opinião pública mundial se posicione sobre cada um destes fatos e se levante contra as injustiças que deles emanam.

Essa cadeia de ação e reação que segue em uma espiral de ódio, xenofobia e fascismo somente poderá ser rompida com o levante de quem, até agora, tenta contextualizar esse ou aquele ato de covardia sob algum argumento qualquer, desses que se tira da prateleira na tentativa de se explicar diante da ambivalência do ser ou não ser Charlie. Nesse caso do CH, não. Não há outro contexto que não seja o da estupidez, do fanatismo religioso, do assassinato frio, vil e cruel.

Alguns pilares da democracia e do convívio entre as nações, simplesmente, não são negociáveis.

A liberdade de expressão é um deles.

* Jornalista, editor-chefe do jornal Correio do Brasil

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