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DIREITO E JUSTIÇA – 29 DE OUTUBRO

qui, 29 de outubro de 2026 08:00

As Bodas de Caná: o Primeiro Milagre de Jesus

  • À esquerda: Os serventes enchem as seis talhas de água até em cima.
  • À direita:         Jesus, como faria sempre, abençoa; e a água transforma-se em vinho.

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As Bodas de Caná:

  1. Três dias depois, celebraram-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus.
  2. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.
  3. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”.
  4. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”.
  5. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser”.
  6. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas.
  7. Jesus ordena-lhes: “Enchei as talhas de água”. Eles encheram-nas até em cima.
  8. “Tirai agora – disse-lhes Jesus – e levai ao chefe dos serventes”. E levaram.
  9. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo
  10. e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom; depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora”.
  11. Esse foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

FONTE: Evangelho segundo João: Cap. 2 – Vv. 1-11.

 

Comentário Pessoal:

As Bodas de Caná (João: Cap. 2 – Vv. 1-11) narram o primeiro milagre público de Jesus Cristo, sendo um episódio muito rico em significados, trazendo-nos ensinamentos profundos para a nossa vida diária. A transformação da água em vinho representa a renovação da alegria, da esperança e da fé incondicional pelas mãos sagradas de Jesus. Foi o primeiro sinal irrefutável, dado por Jesus, manifestando a todos os presentes naquele casamento a sua glória e poder, fazendo com que os seus discípulos cressem nele.

Na pesquisa que eu fiz, elencam-se diversos significados do texto de João, incluindo significados ocultos, alquímicos e esotéricos, que vão muito além da narrativa literal. Na tradição mística e ocultista, por exemplo, simboliza a transmutação da consciência humana e a união da alma com o divino. Conforme a orientação espiritual ou religiosa de cada pessoa, bem como a sua ideologia e modo de encarar a própria existência, poderão surgir as interpretações mais imprevisíveis e espichadas possíveis, até mesmo inverossímeis (no meu entendimento), que me parecem desconsiderar o propósito deste texto evangélico, ou afastar-se muito do seu real e verdadeiro significado.

Por isso, vou ater-me mais ao sentido literal do texto, retirando dele os significados que entendo serem os mais úteis e próximos da vida e da vinda de Jesus a este mundo. Poderei estar errado (e provavelmente estarei), mas eu terei feito valer a minha “fé raciocinada”, ou racional, conforme preconiza um dos princípios básicos da Doutrina Espírita ou Kardecista.

Eis o que penso:

1º – “Mulher”: Tal foi o tratamento dado por Jesus à sua mãe, Maria. Também do alto da cruz Jesus dirigiu-se à sua mãe, referindo-se ao seu discípulo mais amado, o próprio João, dizendo: “Mulher, eis aí o teu filho”. Em nenhuma passagem dos Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), Jesus emprega o termo “mãe”. Por que não? Isto sempre me intrigou. Parecia-me soar mal. Cria mesmo ser uma fala ríspida ou rude de Jesus para com Maria.

Mas não é assim. Muito pelo contrário! Esse tratamento de Jesus para com sua mãe é linguístico e cultural. No grego do Evangelho de João, “Gynai” era um tratamento honroso, equivalente a “Senhora”, não tinha tom de desprezo. No hebraico e no aramaico mais antigos, seria ainda mais respeitoso. Há quem ligue este tratamento ao Gênesis, onde Adão chama Eva de “mulher”, como título de dignidade, e não de distância.

No contexto das bodas, Jesus está marcando uma transição: de filho obediente a revelador messiânico. E, na cruz, ao dizer “Mulher, eis aí o teu filho”, referindo-se a João, para que daí por diante cuidasse de Maria, ele a colocou num papel novo, mais elevado, de mãe espiritual, e não somente materna. Como quer que seja, Maria saiu engrandecida no episódio das bodas, em face da reverência e do pronto atendimento que Jesus dispensou ao seu apelo; e, como diríamos hoje em dia: a mãe de Jesus ficou publicamente reconhecida e “empoderada” pelo próprio Cristo.

2º – As talhas: Uma talha, no sentido de pote ou vasilha, é um recipiente de grande porte, geralmente feito de pedra, conforme o texto, barro (argila), cerâmica ou louça, com formato bojudo e boca estreita, usado tradicionalmente para armazenar líquidos (como azeite, água ou vinho) e cereais.

Eram seis talhas e cada uma delas continha duas ou três medidas. Uma medida equivalia a cerca de trinta e nove litros; então, cada talha guardava entre 78 e 117 litros. Com as seis talhas, o total chegava a algo entre 470 e 700 litros de vinho. O Evangelho não diz quanto das talhas foi enchido, mas o texto afirma que foram enchidas “até em cima”, provavelmente por ordem de Jesus. Era muita água, podem acreditar…!

Discute-se muito o porquê de seis talhas, e não sete, ou cinco, ou outro número qualquer. Na numerologia mística, o número seis representa o homem (criado no sexto dia) e a imperfeição ou incompletude (já que o número divino da perfeição é sete); de fato, o número sete idealiza a totalidade, algo completo, acabado, assim como a criação de Deus, que terminou no sétimo dia com o seu descanso.

Simbolicamente, as talhas vazias ou com água significam a incapacidade das antigas leis e rituais humanos de preencherem a alma completamente. Jesus traz o sétimo elemento, o que contém a perfeição, completando-as ou enchendo-as com vinho, uma bebida nobre ou divina. Colocadas no local das bodas, por acaso ou propositadamente, as talhas eram seis, e isto é o que importa. Eram grandes o bastante para conterem muito vinho e mostrarem ao mundo a glória, o poder e a realeza do Divino Mestre Jesus.

3º – A transformação da água em vinho: A água representa a natureza humana, comum, fria, inconsciente, ou a purificação externa (conforme as leis antigas). O vinho representa a espiritualidade superior, o sangue divino, o êxtase e a consciência desperta. Jesus teria pretendido unir o humano ao divino, por assim dizer.

Porém, vou ser mais direto e próximo da realidade. A água limpa e potável estava ali por simples necessidade: servir às purificações e abluções dos judeus, bem como suprir usos domésticos comuns e habituais. Água para beber, lavar-se, limpar etc. A água é essencial à vida, sem dúvida alguma. Já o vinho é uma bebida nobre, própria da realeza e do divino. Por isso mesmo, era, como ainda é, a bebida fina por excelência, vertida nas solenidades, festas e eventos de grande significado ou importância. Não poderia faltar em um casamento, sob pena de questionamentos e críticas à imprevidência do noivo.

Ainda mais do que atender ao pedido de sua mãe, Jesus garantiu àquelas bodas a sua continuação tranquila, sem percalços e sem tumultos, dando a todos um vinho de alta qualidade, servido no final, o que intrigou o chefe dos serventes, indo ele até o noivo demonstrar sua estranheza. Não era usual servir o melhor vinho no final da festa…!

Jesus iniciou ali a sua missão redentora, dando-nos, desde logo, o melhor de si e assim se manteve até sua ascensão aos céus. Sempre o completo, sempre o suficiente, sempre o tempestivo, sempre o razoável, sempre o justo, sempre o necessário, sempre o correto. Todos os que procuraram Jesus, buscando auxílio e demonstrando fé no seu poder, obtiveram a graça de forma total, pronta, perfeita e incondicional. E João deu testemunho disso em seu Evangelho: Capítulo 21 – Vv. 24 e 25. In litteris:

24 – Este é o discípulo que dá testemunho de todas essas coisas, e as escreveu. E sabemos que é digno de fé o seu testemunho.

25 – Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas, uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.

4º – Reverência e amor filial: Aparentemente, e num primeiro momento, a intenção de Jesus parecia mesmo ser a de mostrar-se indiferente à falta de vinho nas bodas, consoante lhe fora comunicada por sua mãe. Então, por qual motivo Jesus mudou de atitude e consentiu em que se enchessem as talhas de água, propiciando a transformação da água em vinho?

Eu creio que essa atitude de Jesus decorreu de quatro fatores:

A – O pedido implícito de sua mãe, para que suprisse a falta de vinho;

B – A fé de Maria em que Jesus resolveria a questão com o seu poder;

C – A reverência filial de Jesus para com o pedido de sua mãe;

D – A decisão de Jesus de iniciar ali mesmo a sua missão terrena.

5º – O noivo oculto: O noivo real da festa nunca é nomeado e quase não aparece. Quem providencia o melhor vinho da festa – função que caberia estritamente ao noivo – é Jesus. A falta de um nome para o noivo em nada altera a importância do que Jesus fez ali. O significado oculto aqui é que Jesus é o verdadeiro noivo, o noivo da humanidade, o noivo que veio trazer a alegria definitiva para as nossas vidas, inaugurando uma nova aliança entre Deus e a Humanidade, baseada no perdão (incondicional), na caridade (infinita) e na solidariedade (irrestrita) ao nosso próximo.

O tempo de Jesus havia chegado! E perdura até os dias de hoje!

E que assim seja para sempre!

Araguari – MG, 29 de outubro de 2026.

Rogério Fernal

Rogério Fernal .`.

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