CONTADOR EXPLICA – 28 DE AGOSTO
sex, 28 de agosto de 2026 08:00
MAGNÍFICA HUMANIDADE E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 4.0
Em 15 de maio de 1891, o Papa Leão XIII publicou a Rerum Novarum. Exatamente 135 anos depois, em 15 de maio de 2026, o Papa Leão XIV apresentou a Magnifica Humanitas. O intervalo é enorme; o problema humano, nem tanto. Mudaram as máquinas, as ruas, os aplicativos e os algoritmos. A pergunta continua: o progresso econômico está servindo à pessoa ou usando a pessoa como combustível?
No século XIX, Leão XIII observava a transformação causada pela indústria, a concentração da riqueza e o enfraquecimento dos trabalhadores diante de uma concorrência sem freios. Foi ainda mais contundente ao denunciar trabalhadores “entregues à mercê de senhores desumanos” e a “usura voraz” que agravava a miséria. A Rerum Novarum não rejeitava a empresa, a propriedade ou o capital. Exigia, porém, que a economia respeitasse a dignidade de quem trabalha e que o salário não fosse insuficiente para uma vida digna.
Em 2026, Leão XIV retoma o mesmo fio. A Magnifica Humanitas afirma que o trabalho não é mero instrumento de renda, mas expressão da dignidade humana, e alerta que novas formas de trabalho podem submeter pessoas à velocidade, às exigências e à vigilância das máquinas. O Papa fala de economia digital, concentração de poder tecnológico e até de “novas formas de escravatura”, lembrando que eficiência e inovação não justificam cadeias invisíveis de exploração.
É impossível ler essas duas encíclicas sem olhar para o trabalhador dos aplicativos. Dados lidos pelo CONTADOR EXPLICA mostram que motoristas trabalham, em média, 52 horas por semana, chegando a 60 horas em algumas capitais. Eu, Rodrigo também uso Uber toda semana! Em uma pesquisa com 1.252 motoristas, 92% estavam endividados e 68% disseram que as dívidas comprometiam despesas essenciais. Outro dado chama atenção: 89% relataram impactos negativos na saúde mental. Há contestação da representatividade desses números pelas entidades do setor, o que reforça a necessidade de transparência e de estudos responsáveis.
No iFood, a realidade também exige cuidado para não generalizar. Dados divulgados pela própria plataforma apontaram média de 31,1 horas mensais e cerca de 90% dos entregadores até 90 horas por mês. Ao mesmo tempo, levantamentos sobre quem depende da atividade como principal fonte de renda apontam jornadas muito maiores. O ponto, portanto, não é demonizar a tecnologia, mas perguntar quem suporta seus custos: combustível, manutenção, tempo, risco e previdência.
E há outra exploração antiga com roupa nova: o endividamento. Em 1891, Leão XIII escreveu sobre a “usura voraz”. Em 2026, consumidores ainda convivem com contratos de crédito capazes de tornar dívidas praticamente impagáveis. Hoje há regras, Banco Central, CET e instrumentos de defesa; ainda assim, quando a necessidade econômica retira a liberdade real de escolha, a discussão deixa de ser apenas financeira e passa a ser também moral.
As bets tornam essa reflexão ainda mais urgente. Em 2025, brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões em casas de apostas autorizadas; cerca de R$ 37 bilhões tornaram-se receita bruta do setor. Ao mesmo tempo, um dossiê do IEPS estimou em pelo menos R$ 30,6 bilhões anuais os danos à saúde associados às apostas. O estudo relaciona o jogo problemático à depressão e a casos de suicídio [autoextermínio], estimando R$ 17 bilhões em custos associados às mortes por suicídio. É importante dizer com precisão: associação não significa prova de causalidade direta, e o próprio estudo reconhece essa limitação.
A exploração de 1891 tinha fumaça de fábrica, jornadas pesadas e patrões visíveis. A de 2026 pode chegar por uma tela: uma corrida aceita por necessidade, uma entrega feita no limite, um empréstimo renovado para pagar outro ou uma aposta vendida como esperança de enriquecimento imediato.
Esse debate não é uma condenação ao empreendedorismo, ao crédito, às plataformas ou à inovação. É um chamado à responsabilidade. Empresas precisam lucrar sem desumanizar; o Estado precisa regular sem sufocar; consumidores e trabalhadores precisam de informação e proteção; e a sociedade precisa parar de tratar sofrimento humano como simples efeito colateral inevitável do crescimento econômico.
Leão XIII e Leão XIV, separados por 135 anos, apontam para a mesma linha moral: capital, tecnologia, crédito, plataformas e inteligência artificial devem servir ao ser humano — nunca reduzir o ser humano a custo, dado, clique, corrida, entrega ou aposta.
A verdadeira modernidade não é apenas produzir mais rápido. É progredir sem deixar a humanidade para trás.
Rodrigo Almeida Rodrigues – CEO Fundador In Companny Contabilidade
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