Quinta-feira, 05 de Dezembro de 2019
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O touro chamado câncer de mama, por Alzira Corrêa

qui, 16 de outubro de 2014 00:01

ABERTURA DEBAIXO DO PE DE LIMAO
Alzira Corrêa   

Sempre recebo posts de pessoas falando sobre o câncer. Há alguns dias, circulou um na internet, de uma menininha de uns dois anos que canta e dança a coreografia das poderosas. A cabeça carequinha e o rosto com as papadas do corticóide sinalizam que a pequena está tratando um câncer.

Com o resultado de carcinoma lobular invasivo, na mama direita, um tipo raro de câncer, cheguei ao hospital COT de Uberlândia, em uma tarde de agosto de 2012. No hall, duas meninas carecas, de uns 15 anos e uma mulher muito jovem, também careca, assistiam a um jogo de vôlei. Acho que era um campeonato mundial. Torciam, rindo e comentando os lances da partida. Fiquei ali, atônita, entre o atestado de impermanência dado pela biópsia positiva e os risos nos rostos inchados das meninas. Aquela alegria me parecia despropositada, perante a dor previsível de uma antessala de um hospital oncológico. As atendentes circulavam sorrindo, boca e olhos maquiados, lindas. Esperava outro ambiente, e ali no meio daquelas risadas de gente talvez mais doente que eu, senti que havia algo que teria de aprender e muito rápido.

As lições do dia continuaram com o meu amigo Walter, há algum tempo em tratamento, que rindo, falou dos seus touros: “Que vengam os toros!” Os touros, segundo ele, são as dificuldades enfrentadas pelo paciente de câncer. Que vengam!

Nas primeiras consultas, o médico já foi me passando que as Donas Marias que ia encontrar só sabem falar de doenças e mortes e que o Dr. Google tem informações demais, que poderia não entender.

Passada a perplexidade, veio a constatação que havia um caminho a ser percorrido, pra se alcançar a luz da vida. Os molengas vão ficar na estrada, idem os negativos. Adoro viver, e decidi que não podia abrir mão da vida e das festas da vida, como a formatura dos meus filhos, os casamentos, as viagens, o jornalismo.

Vinte dias depois da primeira quimioterapia, estava careca e após três meses, sem um pêlo no corpo (aí incluídos os cílios e as sobrancelha), depois perdi as unhas. Tudo absolutamente inglório, pra mim que adoro um cabeleireiro. Como diz uma cunhada querida, entre o padre e o cabeleireiro, primeiro o cabeleireiro.

A neuropatia nas pernas e pés é um capítulo especial. Tudo dói muito e levei altos tombos, por falta de equilíbrio. O edema de quase dez quilos demorou seis meses pra passar, mas passou. Assim foi, bastando, a cada dia, o seu mal, como Jesus ensinou. Mas, se o que é bom passa, o que é ruim, também passa.

Aprendi que somente os fortes resistem e me descobri uma campeã em força, coragem e determinação. Ri muito com a família e os muitos amigos que apareceram de tudo quanto é lugar, pra me visitar. Resgatei amigos que não via há muitos anos e como isso foi bacana. Nunca pensei que houvesse tanta gente boa no mundo, e como tem. Se houve lágrimas? Sim, ninguém é de ferro, especialmente no dia em que tirei a faixa do peito mutilado. Foram vinte horas chorando, até entender que sou mais que um pedaço de carne.

Os touros do Walter são brutos, mas apenas touros. As Donas Marias me divertem, pois invariavelmente esquecem e soltam que têm um parente que morreu de câncer (aliás, todos têm). Continuo incorrigível com o Dr. Google. Não consigo imaginar o câncer sem alegria, sem causos, sem apoio e carinho. Ainda quero aprender a coreografia das poderosas. Quem sabe consiga passar pra alguém que os touros vão vir e que são mais mansos, quando o toureiro sabe rir.

8 Comentários

  1. Priscila Diniz disse:

    Bela crônica. Me emocionei ao ler.

  2. Wilton disse:

    Olá, Alzira gostei muito de seu texto e sua coragem de enfrentar esse touro, que pra vc nunca vai passar de um bezerrinho.
    Parabéns.

    Wilton

  3. Marcio Bacci disse:

    Bela mensagem Alzira. Gracias. É exatamente isso, aprendi que temos que inventar uma nova maneira de viver.

  4. Maria Helena Vieira disse:

    Forte e elegante com as palavras !
    Acompanhei alguns momentos de sua força por um fio …
    Recuperaste com muito sucesso …
    Numa expressão de que a fé remove tudo …
    Um abraço !!!

  5. Sandra Mara Guimarães disse:

    Alzira querida …. que emocionante e sensível fala que além de tocar o coração também me tocou a alma. Parabéns!!
    Luz, Paz, e Fé e alegria!!!

  6. Maria Amelia Breves disse:

    Amiga Alzira deixando poeticamente sua marca de coragem força e determinação nessa crônica linda e verdadeira. Que você possa vencer o touro-filho da queda de cabelos com a mesma galhardia que venceu o touro-pai da doença. Que vengam los toros. Um grande abraço.

  7. Natalia Gonzaga dos Santos disse:

    Uma grande lição de vida. Belas e encorajadoras palavras.

  8. Gilmar Faria de Almeida disse:

    Gostei muito desse testemunho e da forma natural com que descreveu a experiência.

    Que Deus continue te abençoando sempre.

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