Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
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Burguês e elite branca

qui, 2 de outubro de 2014 00:35

ABERTURA DEBAIXO DO PE DE LIMAO
Alzira Corrêa

Há algum tempo, na feira de domingo, dei de testa com um conhecido da juventude, da época em que fazia faculdade e ele trabalhava com artesanato. Apesar de fazer um curso puxado em período integral, também trabalhava, dando aulas no período noturno. Aquele foi um tempo muito difícil, mas nunca guardei qualquer ressentimento em relação às pedras do caminho. A paixão pelos estudos, conservo até hoje: exercito a curiosidade lendo e estudando todos os dias.

Voltando à feira, o rapaz perguntou o que estava fazendo, e retrucando minha resposta, ele sapecou, meio irônico, meio grosseiro: “Ah! Sim, você sempre foi burguesa!”. Fiquei sem entender o tom da conversa, mas a afirmação dele, guardo ainda.

Vindo do dicionário, burguês significa a pessoa que, na idade média, morava nos burgos, povoação importante, mas de categoria inferior a de uma cidade. Eram comerciantes, que passaram a deter os meios de produção. No sentido pejorativo, é a pessoa rica, calculadora, metódica.
Recentemente, o ministro chefe da Presidência da República, Gilberto Carvalho andou imputando às elites brancas, os males do país. O termo foi cunhado por Lula, para se referir a qualquer pessoa que fosse opositor dos projetos sociais do governo e claro do governo PT. Creio que ser burguês deve ser a mesma coisa que ser da elite branca, “inimiga dos pobres”.

Vim de uma família numerosa, nove filhos de pais pobres que se mudaram pra Uberlândia, buscando uma vida melhor, como tantos. Nada contra, mas meus pais nunca receberam qualquer bolsa para nos criar. Como dizem eles, foi tudo na base do suor sustentado a feijão roxinho. Além da filharada, ainda tínhamos meus avós, lindos velhinhos, mas que exigiam vez ou outra, médico e remédios (sempre pagos) e comida todo dia. Só papai tinha salário e a coisa começou a mudar quando, à medida que completávamos quinze anos, íamos trabalhar. Fui vendedora de tecidos, em uma loja da Floriano Peixoto. A cada filho com quinze anos, meu pai corria no colégio estadual e já passávamos pro noturno.

Fui ganhar passe de ônibus e vale refeição, só muito mais tarde. Cadernos, livros e uniforme de escola, nunca. Aliás, mamãe no final do ano, descosturava o uniforme todo, e virava o tecido do avesso e costurava de novo. Assim o uniforme ficava azulzinho e durava dois anos.

Sei o gosto da sopa rala de arroz do grupo 13º de Maio e tenho gratidão por ela. Era boa, na falta do lanche, que nunca levamos. Na semana das crianças, os alunos colaboravam com frutas para a salada, e às vezes, mamãe mandava chuchu do quintal, pra ajudar na sopa.

Quando fui pra faculdade de engenharia, direto do Colégio Estadual, me senti a tal. Depois vieram outras vitórias, os irmãos estudando e trabalhando sempre. Não tínhamos mais os avós, que partiram pro céu, mas um monte de primos que recebemos pra também estudar.

Não tenho olhos azuis, nem sou tão branca. Seu Lázaro, meu pai, é bisneto de escravos, mas pelo que estou entendendo, a partir do momento que entrei na UFU, já era da elite branca, que frequentava as universidades federais (de repente, lembrei de Fernando Henrique Cardoso, que dizia que as universidades públicas eram lugares de filhinhos de papai). E depois, que consegui ter casa e carro, passei à burguesa.

Isso que o colega chamou de burguês, significa apenas luta e persistência. Faria tudo de novo, sem medo. Acordaria às seis da manhã e só iria para cama, depois da onze da noite, se isso significasse construir o meu caminho. Ninguém pode se sentar à beira da estrada, olhando a vida passar e pensar que a culpa da sua história é dos outros. A carruagem tem de andar. O resto é apenas o ladrar dos cães.

1 Comentário

  1. Luciana disse:

    Adorei, ótimo texto!

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